Na colcha de retalhos que é São Paulo, de vez em quando examinamos algumas peças do passado com mais precisão. Tornaram-se inesquecíveis, no seu exotismo, no seu inesperado. Então ficamos revirando-as na memória, tentando apreender-lhe bem suas formas, ás vezes estranhas e cheias de arestas, outras vezes suaves, e pensando qual sua colocação precisa no total de nossa vida. Sem preocupações de sequência, pois poderiam ser atemporais, coloco na mesa algumas delas.<br><br>Rua Tutoia, idos de 1973. Na frente do soturno muro do quartel, uma lanchonete. A rua tranquila, mas ouve-se um ruído arrastado. É um carroceiro, crioulo, puxando sua carriola. Na traseira, sua mulata deitada, pobremente trajada, como ele. Mas, nas mãos carregava um buquê de balões coloridos, flutuando como um estandarte, uma parada pobre desfilando ao lado do quartel cinzento, voando desafiante, colorindo a rua triste, ainda num ano de ditadura.<br><br>Rua da Consolação, 1992. Do lado esquerdo da calçada, de quem sobe para a Paulista, um Papai Noel galga a rua. Seu vulto esguio e escuro, vestido em vermelho, caminha sofregamente na ladeira. Como se quisesse alcançar um Natal, ainda muito distante, pois estávamos no início do ano. Faltava muito ainda para a Paulista, quem sabe ele chegaria lá no fim de ano, no dia e hora aprazados para sua aparição?<br> <br>Rua Antonio de Godoy, anos 60. Ali pontificam à Casa Italiana, com suas pizzas e focaccias, feitas na hora, assadas à vista do cliente. Atrás do balcão, uma bela moreninha de óculos. Perto dela, também atendendo, sua vigilante mãe. Morena e de óculos também. O rapaz, tímido e franzino, frequentador do local, aproxima-se mais uma vez do balcão. Então ela estende-lhe uma linda rosa vermelha, de um vaso colocado atrás. Ele ensaia um diálogo, mas a mãe ali não dá folga. <br><br>Na próxima vez que volta lá, a mocinha havia desaparecido, para todos os cinquenta anos seguintes. Prédio Martinelli, 1959. Sala 1922. Nosso herói outra vez ás voltas com as mulheres. Leni, uma vendedora de café bonitinha, que gosta de conversar com ele. De repente, ela avança e preme contra sua boca os seus polpudos lábios. Era o primeiro beijo não pago dele, dado com ardor e afeição.<br><br>E assim poderíamos continuar, puxando essas peças dos recônditos da memória, talvez para o resto da vida. Peças de um quebra cabeças desengonçado e incompleto, muitas vezes não encontram encaixe. Ficam soltas, esperando sequência, e esta não acontece. Só poderão ser compreendidas num panorama mais completo de nossa existência, também desengonçada, onde ainda lutamos para achar sentido. Mas sempre peças ficarão faltando.<br><br><br>E-mail do autor: [email protected]