Que susto!

Morar na Av. D. Pedro I no Ipiranga sempre foi um previlégio para mim. Até os anos 70 o tal logradouro era sinônimo de elegância, nobreza. E, de mais a mais, ficava "Às margens plácidas do Ipiranga." cantado em prosa e verso pelo mundo a fora.
Você podia tranquilamente tomar um ônibus, ou anterior a isso um bonde para qualquer lugar da cidade. Passear pelas calçadas olhando as roseiras dos jardins das casas, ou simplesmente sair no portão e ficar olhando a vida e os carros passarem. Neste quesito se você tivesse menos de 14 anos podia ficar apostando no número final da placa do próximo fusca vermelho, se seria par ou ímpar.
Quando a noite chegava, dormíamos ouvindo a sirene das muitas fábricas da região,que marcavam o início ou fim do turno noturno dos trabalhadores da região. Na cristaleira(armário onde se guardava os copos que muitas vezes não eram de cristal) as taças e copinhos tilintavam suavemente cada vez que um bonde passava.Todos os ruídos, todos os cheiros,todos os eventos eram previsíveis.
Mas de uma hora para outra a vida começou a mudar; o progresso trouxe a velocidade dos carros e os motoristas imprudentes. Atravessar a Av. D.Pedro I passou a ser perigoso, até semáforos foram colocados. Os ruídos de freiadas e batidas passaram a fazer parte dos sons noturnos e até diurnos.
Numa noite perto das 2:00hs acordamos todos em casa com um grande estrondo. Acreditem:UM FUSCA BATEU VIOLENTAMENTE NUMA DAS VETUSTAS ARVORES DE UM CANTEIRO SUBIU NO TRONCO E FICOU PENDURADO EM SEUS GALHOS. Todos de pijamas na rua, vimos os assustados passageiros descerem do automóvel ilesos.Tenho a impressão que este acontecimento marcou o fim da era de ouro da nossa Av.D. Pedro I, hoje pichada, invadida e degradada como tantas outras.