Quando chego em São Paulo de carro pela Via Anchieta, já na Vila das Mercês, entro à direita pra pegar a Rua Vergueiro. Neste cotovelo que passa por baixo da pista há, no canteiro, quase encostada ao miniviaduto sob a estrada, uma paineira belíssima, quase sempre florida. Já quase bati o carro por causa desta paineira, para olhar esta paineira, que é absurdamente bonita.
Nos dias que correm, quando às vezes me pego triste diante de tanta coisa ruim, uma cena assim me traz de volta a emoção.
Acho que fui lembrando de tudo isso, porque neste 03 de abril de 2009, quando escrevo este texto no escritório, vendo da janela o céu sumir sobre São Paulo, ou antes, o azul do céu sumir coberto por nuvens em tons claros / escuros, como se fora Rembrant, vivi pela manhã, quando fazia minha caminhada, uma cena extremamente dorida.
Na calçada, em andrajos, dois moradores de rua conversavam sobre o gramado. Não sei do que falavam, mas em determinado momento um deles se levantou trêmulo, apoiado a um porrete e o outro, olhando o amigo com profunda tristeza, disse mais ou menos isso "não posso ver isso, não posso. Nós somos cristãos, somos filhos de Deus".
Ouvi só isso. Pensei em falar com eles, em ajudá-los no que fosse possível, em ofertar-lhes algum alimento. Nada! Não fiz absolutamente nada!
Continuei meu caminho. Tentei esquecer, fingir que não ouvira nada demais, que aquilo não era comigo, mas, invariavelmente o pensamento retorna àquele momento único em que eu poderia ter feito algo realmente importante e não fiz. Eles continuam lá. Se eu quiser de verdade fazer algo, ainda é possível. Mas, assim como a paineira não estará mais florida daqui a alguns dias e voltará a ser apenas uma árvore como tantas outras, quase imperceptível, eles também definharão em meu pensamento, pois tudo passa e, sendo assim, é mais fácil deixar pra lá.
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