Caixinha obrigado

CAIXINHA OBRIGADO, este é um grito característico de quem recebe uma gorjeta. Quem frequentava a Salada Paulista, inesquecível casa de lanches da Avenida Ipiranga próximo a Avenida São João, já estava acostumado ouvir o tilintar da máquina registradora e ouvir o caixa gritar: “caixinha obrigado”. <br><br>Ele não estava pedindo, e sim dizendo aos colegas que uma gorjeta tinha sido ofertada, que ele colocava na caixa de papelão ao lado. Era talvez a gorjeta mais bem dada pelos clientes, tanto por coisas gostosas oferecidas pela casa, como também pelo bom atendimento dos que serviam o balcão, que anotava o preço a lápis na pedra mármore do balcão.<br><br>Na época do Natal a caixinha ficou sendo uma coisa da moda. Quem pede a tal caixinha de Natal, todo ano, são os coletores do lixo, que o povo chama de lixeiros. <br><br>Ninguém deixa de dar porque eles são merecedores de receber a tal caixinha. Não se conhece quem deixa de dar sua contribuição, pois eles, com sol ou chuva, estão sempre correndo atrás dos sacos de lixo, que anos antes eram latas ou latões.<br><br>Dias antes da festa do Natal um cartão é colocado na caixa do correio, dizendo que são eles os coletores, que é para não dar a pessoas aproveitadoras.<br><br>Hoje a coisa está mais sofisticada. Em vez do cartão, recebi hoje um calendário com a foto dos quatro coletores. E nem era preciso, pois eles coletam o lixo por volta das 19 horas e já são nossos velhos conhecidos.<br><br>Hoje em dia é difícil a coleta durante o dia, a maior parte da coleta do lixo é feito à noite e vara a madrugada. Nem mesmo o barulho da passagem dos caminhões e o barulho do rotor que tritura os ingredientes prejudica o sono das pessoas, porque todos sabem que é um barulho para o bem de todos.<br><br>E, baseado nisso, todos se acham no direito de pedir a tal caixinha, Carteiros, marcadores ou entregadores de conta de água e luz dão o tal grito “olha a caixinha de Natal”. E muitos ficam por minutos à espera de alguém que venha a dar. E, quando não aparece alguém para dar, cara feia é pouco, sem contar palavras nada agradáveis de ouvir. Mas não é só no Natal que pedem. Virou moda pedir a tal caixinha em qualquer data comemorativa. A caixinha da Páscoa também é solicitada, mas aí parece que ninguém, ou a maioria, não dá.<br><br>Parece que o povo achou por bem dar gorjeta a todos os que trabalham, em qualquer tipo de serviços, tinha gente que ficava vermelho quando não tinha um trocado para dar ao frentista de um posto de gasolina, ou a um entregador de alguma mercadoria. E também o atendimento nunca era bom para quem não gostava de dar uma gorjeta.<br><br>No posto de gasolina houve o entrevero de um cliente com um funcionário de um posto de gasolina que prestava outros serviços, como troca de óleo, por exemplo. Uma ocasião o tal cliente foi trocar o óleo, e o funcionário a atendê-lo foi aquele com quem houve a discussão. Quando o amigo chegou na Serra de Santos a luz do óleo acendeu, foi falta de óleo que o painel mostrou. Ficou positivado pela perícia que, na troca do óleo, o parafuso do local por onde saía o óleo velho foi apertado pela metade, e o óleo foi vazando até ficar sem nada no Carter. O dono do posto teve que arcar com o conserto do motor que fundiu. Na certa o funcionário teve que ressarcir o patrão. <br><br>Com o evento do cartão de débito ou de crédito, ficou mais fácil não dar a tal caixinha em postos de gasolina. Não ando com dinheiro, só uso cartão, uma boa desculpa.<br><br>Na certa, Juca Chaves um dia se lembrou desse grito e fez a letra de uma música com o título Caixinha Obrigado.<br><br>A mediocridade é um fato consumado / na sociedade onde o ar é depravado / Marido rico, burguesão despreocupado foi casado com mulher burra, mas bela / O filho dela é político ou tarado / Caixinha, obrigado!<br><br>A situação do Brasil, vai muito mal; / Qualquer ladrão é patente nacional; / Um policial, quase sempre, é uma ilusão / E a condução é artigo racionado.<br><br>Porém, ladrão… isso tem pra todo o Lado! / Caixinha, obrigado! O rock'n'roll, nesta terra é uma doença, / e o futebol, é o ganha pão da imprensa vença ou não vença, o Brasil é o maioral / e até da bola, nós já temos general que hoje é nome de estádio municipal / Caixinha, nacional!<br><br>A medicina está desacreditada / penicilina, já é coisa superada / tem curandeiro nesta terra pra chuchu / Rio de Janeiro tá pior que Tambaú e de outro lado, onde está o delegado / Caixinha, obrigado!<br><br>Dramalhão, reunião de deputado / é palavrão que só sai pra todo lado. Se um deputado abre a boca, é um atentado / E a mãe de alguém é quem sofre toda vez.<br><br>No fim do mês… cento e vinte de ordenado. / Caixinha, obrigado!<br><br>e-mail do autor: [email protected]