Quanto vale um real?
Foi há alguns anos que isto aconteceu, ao final da tarde de um dia de aniversário da cidade de São Paulo.
Atendendo à chamada do jornal de grande circulação que então assinava, dirigi-me ao centro da cidade, mais precisamente para a decantada esquina da "Ipiranga com a São João", para acompanhar uma apresentação musical, se não estou errada, do grupo "Demônios da Garoa".
Estacionei o carro com facilidade no Largo do Arouche, em função mesmo do feriado, que normalmente esvazia o centro de São Paulo, e segui a pé até o famoso cruzamento.
Lá, junto com outras pessoas que haviam atendido à mesma chamada, constatamos que ocorrera falha na divulgação de um evento que não iria acontecer.
Juntos, reclamamos um pouco do erro do jornal e pelo deslocamento inútil (mais tarde, registrei meu protesto na Seção de Leitores do mesmo jornal) e nos encaminhamos para retornar.
Foi quando, já dentro do carro e me preparando para sair, apareceu o “flanelinha” pedindo um trocado. O dia estava quente e a janela do carro completamente aberta; lhe entreguei um real e fiquei esperando que fosse embora, já um pouco preocupada com a exposta fragilidade em que me encontrava. Ele ficou parado, com o rosto voltado para a moeda, colocada em sua mão, como se fosse uma concha; em seguida levantou a cabeça e, ao me fitar, fiquei ainda mais assustada, porque seus olhos estavam avermelhados e imaginei que, drogado, me atacaria querendo muito mais dinheiro do que aquela insignificante moeda de um real.
Mas ele disse: "Dona, hoje eu pensei que fosse dormir sem ganhar nenhum real para comprar uma quentinha, lhe agradeço muito pela moeda e que Deus a abençoe".
Olhando para ele, mal pude conter o transbordar do meu, agora também avermelhado, olhar. E assim, emocionada, invoquei que Nossa Senhora o protegesse e fui embora.
No caminho de volta, fiquei pensando se teria sido preconceituoso comigo como fora com ele, imaginando-o drogado. E quanto aquela moeda significava para mim e o quanto significou para ele, naquela circunstância, porque aquele real não teve efetivamente o mesmo valor para ambos.
Dizem que esmola não resolve nada e concordo, mas independentemente disso, sempre é preciso partilhar, nem que seja pouco, porque pode significar muito para quem recebe.
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