José Carlos de Figueiredo Ferraz
Foi há muito pouco tempo.
Tu eras uma cidade pequena. Tinhas uma doçura toda tua. Como mãe zelosa abrigavas a todos com carinho.
O trabalho era farto e o viver alegre. O vaivém da labuta diária era a música cantada em acordes harmoniosos.
Teus contornos paravam ali, logo ali. Alguns sítios como que colocados mais distantes para propiciar as festivas excursões domingueiras. Penha, Santo Amaro, Santana!
As tuas ruas formavam malha caprichosa num cruzar pitoresco. Qual veias pequeninas percorriam seu corpo levando a seiva preciosa dos teus encantos.
Tua gente era feliz. O sorriso habitava em todos os lábios. Os jornais descreviam tua vida simples. Vez por outra uma notícia mais drástica era por muito tempo comentada. No mais, a deliciosa rotina, a doce rotina.
O estudante. O estudante de outrora: boêmio, folgazão, a quem tudo era perdoado, a quem tudo era permitido. Arrebatado, vibrante, pleno de arroubos e de civismo. Seresteiro nato. Irreverente, mas puro.
Tuas manhãs eram envolvidas pela garoa. Aquela saudosa garoa que te envolvia em manto frio, mas que te acariciava com sopros de hálito puro.
Tuas tardes preciosas, de colorido vivo, com réstia de sol varrendo teus recantos, aquecendo tua pele.
As noites. As noites frias que com brandura retiravam a gente da rua para mantê-la agasalhada no aconchego do lar.
Havia as visitas. Discutia-se a arte e a música.
Até mesmo se declamava. Havia os serões. Havia pureza. Tudo era vida.
A luz de gás qual salpicos incandescentes pontilhava tuas ruas para apenas abrandar a escuridão das tuas noites. Assim mesmo tu reluzias.
A gente se movia calma, sem atropelos. O bonde sempre à espera. Depois partia em caprichoso percurso, vagueando… Tudo era convite à fantasia e ao sonho.
Os bares. Os cafés-concertos. A música de violino.
O café servido à mesa.
Tu tinhas alma. Tu tinhas consciência.
Podia-se dialogar contigo. Tu compreendias a tua gente. Teus afagos sensibilizavam.
Tua seiva era pura. Teus regatos corriam límpidos. Do teu solo brotava a fonte cristalina. Teus rios serpenteavam a teus pés banhando-se com a pureza de suas águas.
Eu, infelizmente, não cheguei a te conhecer assim, minha São Paulo. Mas ouvi sempre a história que de ti contavam. E me encantava.
Saboreei parte deste encanto. Parte apenas e por pouco tempo.
Depois, a mudança.
De tímida e pequena tu te tornavas áspera e grande. De suave e meiga, cáustica e áspera.
Teus encantos iam-se à medida que tu crescia. Teus contornos buscavam com voracidade limites cada vez mais distantes.
Tua gente, outrora pacata e alegre, se entristecia. Tu mudavas bruscamente.
Teus pulmões não mais exalavam o ar puro do manto vegetal que te envolvia. E o negrume da fumaça começa a toldar teu céu antes límpido.
Tu te agigantava. Era teu destino. Não mais protegias a gente como dantes.
Impuseste o castigo de viver em ti.
Tua riqueza é decantada. Tua pujança, exaltada. As chaminés vomitam a tua grandeza. Nova gente atraída. Mais, sempre mais. Os antigos recantos desaparecem. O presente traga o passado. Uns poucos logradouros mantidos. O resto demolido para ficar na lembrança, uma remota lembrança.
Foste também cruel contigo. No crescer destruías a ti mesma. Era o preço do teu progresso, o custo da tua glória.
A música, o som desapareceram. Sobreveio o ruído bruto. O sorriso se apagou. A tristeza e a ansiedade cobriram o rosto da tua gente. Ouve-se a lamúria, o choro e o grito.
Isso porque tu crescente.
Não há mais o andar, não há mais o passeio. É a correria, o atropelo. A máquina te brutalizou.
Perdeste o controle de ti mesma. Na voragem do crescer não há consciência em ti. E gigante se tornasse por assumir também responsabilidade gigante.
Consumiste tuas reservas naturais. Desbastaste a mata que te cercava. Comprometeste a pureza de tua água. E a gente não encontra mais o mesmo abrigo em ti.
Quarteirões são destruídos. Casas demolidas. Os cortiços se implantaram. As mansões se foram. Em seu lugar, o rasgo das avenidas e as células de viver.
Tudo em ti é grande. Teus feitos e seus problemas. Tua riqueza e tua pobreza. Tudo é massa.
A notícia revela tua angústia, o teu sofrer. A esperança se esvai. O temor espreita. O crime alastra. A estatística registra teus atos. O número frio e rígido é agora a tua fala.
A poesia não mais entoa os teus encantos de outrora. Revela tua dor.
Adquiriste a beleza geométrica e perdeste a beleza interior.
Sentes o peso do crescer. Parece que presentes o teu destino dramático. Mesmo assim caminhas para ele inexoravelmente, consciente do amargo futuro que te espera por crescer, sempre crescer.
Mas tu, São Paulo, ainda tens alma. Não perdeste de tudo a consciência. Há tempo para que medites. Não te destrua na ânsia de te construíres.
Prefiro-te grande e viva do que gigante e morta.
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