Quando vou à minha doce Sampa, religiosamente uma vez ao ano, passeio pelo centro da cidade, e passeio muito. É como se fosse a vontade imensa de abraçar toda a cidade, me envolver em todas as situações, enxergar e entender todos os rostos, respirar todos os ares, sentir o gosto de todas as comidas e, sobretudo, respirar cultura e o encontro de todos os povos.
A catedral continua linda e incrivelmente poética, viva, com o alegre cheiro de participar da vida de cada cidadão paulistano, independente da sua condição. Consigo ainda, de alguns daqueles bancos, olhar para o altar e sentir a presença humana, ética, sensível, comprometida de Dom Paulo Evaristo, que tem a cara de São Paulo como ninguém. Aliás, a Rita Lee também tem a cara da cidade, como Henry Sobel, o saudoso Pietro Maria Bardi, a Hebe Camargo e também uma grande amiga de mais de 30 anos de convívio, a jornalista Neusa Barbosa… mas isso é outra conversa.
Ali, na catedral, bem na porta, gosto de contar para o meu filho Vinícius sobre as mudanças do país que passaram por ali – as greves de fome pelo fim da ditadura, a missa ecumênica de sétimo dia pelo assassinato do jornalista Wladimir Herzog em outubro de 1975, a longa luta pelas Diretas-já em 1984, os comícios… A Praça da Sé tem o cheiro de vida no seu sentido mais belo – cheira a batalha por causas imensamente justas, é o espaço da aproximação, do encontro, das buscas… para depois se continuar no trabalho.
Naquela mesma Praça da Sé existe um pequeno espaço gastronômico chamado La Romana. Antigamente era a Romagnola. Quando eu era criança eu passava por ali com a minha mãe e a gente comprava rosca, sonhos… essas coisas gostosas que enchem a alma. Agora perdeu um pouco o charme, por ali tá cheio de coisa diet. Cruzes!
Muito interessante também é o espaço atrás da cadetral. Na Praça João Mendes tem a Padaria Santa Tereza, do século XIX. Eu me lembro dela, nos anos 70, com cadeiras de estofado verde escuro, giratórias. Uma vez tomei um guaraná Brahma ali, quando voltava da USP à noite. Com empada de frango! Agora passo por ali, comemos – meu filho e eu – a empada de frango, mas sem o guaraná Brahma, aquele primeiro, delicioso. Bendito guaraná que começou a ser produzido em 1918 e resolveram dar um fim nele…
Aquele sebo ao lado da padaria é maravilhoso demais, completo, de dois andares, mas o fantástico mesmo era a Gazeau. Tinha um gato branco na porta, que se chamava Clarimundo e o seu Gazeau ficava por ali, com seus oclinhos redondos. Ele, sempre arrumadinho, de terno escuro e gravata, mal atendida nos anos 70, mas a sua ajudante, a Rosa, dava conta do recado. A Gazeau tinha a cara de livraria do após-guerra. Tinha tudo ali, mas era escura, tinha muito pó, mas a gente sentia ali dentro o gosto pela vida… apesar do silêncio do sr. Gazeau…
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