Quando tirávamos letras de músicas dos lps

Como eram resistentes as vitrolas antigas! No meu primeiro endereço, Rua Antonio Paes, 94, ap. 2 (Luz), tinha 1,20m de altura por 1m de largura, em madeira de lei escura. À esquerda do rádio, um olho verde separado, que nos observava como se fosse um felino; conforme a sintonia, abria ou fechava, embora muitas vezes chiasse.<br><br>Já na Avenida Onze de Junho, 373 (Vila Mariana), era em marfim e jacarandá, com possivelmente 1,50m x 1m altura. Do lado esquerdo, discoteca com dez prateleiras; no meio, o rádio com sintonia inclusa (menos estática); e do lado direito, bar totalmente espelhado, que refletia infinitas imagens. Saía de seu centro bandeja que se deslocava; na parte debaixo, também existia cinzeiro que vinha para fora quando acionado – surpreendíamos nossos convivas com aquele toque mágico.<br><br>Na parte de cima do móvel, colocávamos toalha de crochê, enfeitávamos com um busto de uma linda mulher e bibelô da "Diana, a caçadora", além de um vaso branco com alguns passarinhos em alto relevo.<br><br>O da casa da minha tia era rosa. Essa mesma vitrola nos acompanhou por vários endereços: Rua Napoleão de Barros (víamos os estudantes de medicina da Escola Paulista jogar basquete pela janela fronteiriça), Rua Dr. Elias Chaves, 203, ap. 51 (Campos Elíseos), Rua Barra Funda, 625, ap. 5 – e depois 4, já que descemos um andar. Finalmente Rua Alves Guimarães, 705, ap.13 (Sumarezinho, Pinheiros, Jardim América, Cerqueira César?).<br> <br>Fazia parte de um ritual da nossa cultura juvenil… Cantávamos. Como cantávamos!<br><br>Quando queríamos tirar letras dos long plays, não cansávamos de levantar o braço direcionando-o para trás, ouvindo novamente o trecho perdido. Quando a música era em inglês ou italiano, pior ainda: cada um de nós entendia uma coisa, tipo “by”, “lie”, “try”… Aí sim é que a coisa se complicava, pois ouvíamos a mesma palavra dezena de vezes até chegarmos a uma conclusão, que nem sempre era correta. Por causa disto, perderam-se vários discos graças às ranhuras. O braço escorregava por sobre ele, e já era.<br><br>As agulhas, então, foram grande novidade quando surgiram as permanentes. As outras precisavam ser trocadas a miude. Lembro-me do cuidado com que limpávamos os discos com aquele mini apagador<br>de madeira recoberto de veludo em sua metade. O da minha casa era cor de vinho.<br><br>Engraçado que nem tinha poluição! Fazia parte de nossa cultura juvenil saber as letras dos sucessos. Como cantávamos! Só muito tempo depois é que as letras das músicas vieram impressas nas contra capas (ou<br>encarte à parte) dos lps, quando então deixamos de decorá-las.<br><br>Quando deixamos de cantar? Sinto saudades das décadas de 50/60!<br><br>e-mail do autor: [email protected]