Presépio

Como a grande maioria da população brasileira, nasci numa família cristã. Aprendi desde cedo o significado do Natal, a importância da sagrada família e sua constituição.

O presépio fazia parte de nossos natais: minha mãe começou a montá-lo no ano em que eu nasci e a cada ano, aumentava uma peça.

Era um trabalho de equipe: meu irmão, meus primos e eu éramos encarregados de coletar material que pudesse ser usado no cenário; minha mãe se encarregava de preparar o local e analisar o material que trazíamos; meu pai, que era carpinteiro, preparava as madeiras, pedras, papéis tipo imitação de pedra, serragem (pó de madeira), que servia para fazer as estradas, na cor original, que lembrava terra e, quando tingida de verde, imitava a vegetação.

A água do lago era feita de espelhos, e nosso presépio tinha pastores, que levavam as ovelhas para beber água nesse lago.

Lá também tinham pessoas buscando água, patinhos e sapinhos nadando tranquilamente, e uma linda ponte, de onde um dos pastores de ovelhas avistava a estrela que brilhava incessantemente no céu quando Jesus nasceu.

Nosso anjo mudava de lugar, conforme se aproximava a data do nascimento de Jesus; a cada dia ele ficava mais perto da manjedoura.

Melchior, Baltazar e Gaspar, os três reis magos, tinham uma estrada especial no nosso presépio, que ficava bem na direção da estrela de Belém que, por sua vez, indicava o caminho aos três.

O que nos incomodava um pouco era aquele bercinho vazio até a noite de Natal; às vezes convencíamos minha mãe a colocar o menino Jesus antes, só pra alegrar Maria e José, que ficavam o tempo todo ajoelhados ao lado daquela caminha vazia até o Natal.

Com o passar dos anos, ele foi aumentando, se modernizando; teve uma época que até luzinhas ele tinha; uma cor para cada parte, ficava lindo!

Só que as pecinhas do presépio às vezes se quebravam, pois a maioria era feita de gesso; no começo, era fácil repor, pois minha mãe conseguia comprar peças avulsas. Mas as coisas mudam e o presépio deixou de ser importante, comercialmente falando.

Vieram as árvores de Natal, cada vez mais bonitas e coloridas, uma maior que a outra, com enfeites de encher os olhos, e o que era simples de se fazer, começou a ficar difícil.

Não achávamos mais peças avulsas para o presépio, só presépios inteiros. E aí nosso presépio começou a diminuir; quando as peças se desgastavam ou quebravam, ficávamos sem aquela parte do cenário.

Minha mãe foi desanimando de fazer o presépio e se rendeu ao brilho da árvore de Natal. Tínhamos então, uma árvore com presépio embaixo, que nos acompanhou na adolescência e juventude, muito linda e brilhante, mas não tinha a magia do nosso presépio.

Hoje ainda mantenho o hábito do presépio e não abro mão de contar a história todo ano ao montá-lo: às vezes a platéia é grande, às vezes nem tanto, mas o ensinamento e o significado continuam na família.

Hoje não se acham mais peças avulsas com facilidade, os costumes são outros; enfim, mudaram os Natais e mudamos nós; mas o ensinamento simples, vindo dos corações de meus pais, esse ficou, e pode ser sentido no respeito que minhas filhas demonstram quando vêem um presépio em algum lugar.

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