O Ovo, depois que leu "A Dona Concheta do Firmino" (publicada no SPMC em 19/08/10), me escreveu dizendo que estava preocupado, pois a nossa diretora, se ficasse sabendo da verdadeira história, poderia nos procurar e expulsar-nos de uma vez do Firmino… Putz! Até eu fiquei preocupado!
Junho era o mês mais infernal dentro do Firmino. Soltar bombinhas, morteiros, etc. no pátio na hora do lanche era uma prática aguardadíssima. Abominável pelas inspetoras de alunos e diretores, pois insistiam em pegar alguém no flagrante para suspender ou até expulsar o aluno, o que se tornaria uma lição para todos.
Eu diria até que provocava uma euforia, um frisson enorme na gente, justamente pelo fato da aventura, da coisa proibida que aquilo gerava para nós, principalmente no ano de 69 da revolução: era um verdadeiro desafio. Coisas de adolescência desprovida de qualquer juízo.
E lá íamos de novo, o Ovo e eu inventar alguma para ficar registrado nos anuais da escola. Precisávamos pensar em algo mais desafiador, pois a repressão era muito grande e não podíamos deixar testemunhas e vestígios. Algo profissional.
Pensamos em algo potente, mas não com poder de destruição, pois isso decididamente não era o nosso propósito. Queríamos algo que provocasse muito barulho, muita fumaça e muito, mas muito comentário. E conseguimos.
Precisávamos de projeção na nossa turma, algo digno de ser lembrado. E foi aí o nosso maior desafio: desenhamos algo partindo do mesmo princípio de um morteiro de 500, lembram? Só que com um pouco mais de papel. Fizemos vários testes,alguns impublicáveis, mas acabou ficando do jeito que a gente queria!
Só mais um detalhe: como acender, se usávamos o mesmo "pavio" de um morteiro simples e que era curtíssimo? Precisávamos de mais tempo! Fizemos vários testes também até chegarmos à bituca de cigarro. Perfeito! Ela dava exatos 15 minutos entre acender, dar a primeira tragada, arrancar o filtro, espetar no pavio, subir pra sala de aula e aguardar para ouvir o barulho! Genial! Tudo devidamente cronometrado.
O local escolhido foi o nosso banheiro e o horário seria no fim do intervalo da hora do lanche. Quando todos fossem embora para as classes e o banheiro esvaziasse, acenderíamos. E foi feito.
Lembro-me que a primeira aula logo depois do intervalo era de português com a professora Maria Helena, uma senhora magra, alta, falava com a boca de biquinho como uma francesa e tão lentamente que dava até agonia. O Machado imitava muito bem ela!
A aula passando e nada; 15 minutos, nada; 20 minutos… Nada! A Dona Maria Helena falando… E nada. Passaram 45 minutos e a gente não se aguentava mais de tanta expectativa! "Só pode ter apagado o cigarro ou alguém achou e abortou nossa missão”, disse o Ovo.
Deu 50 minutos (que era, na época, a duração de uma aula), levantamos como dois doidos e saímos para ver o que tinha acontecido com o nosso artefato. Como nossa sala era no piso superior, tínhamos que descer um lance de escadas e, ao final, viraríamos totalmente à direita, como fazendo um "U" e caminharíamos uns 50 metros até chegar ao banheiro.
Quando terminamos de fazer o "U", ouvimos o estrondo! Congelamos! Por nossa sorte, a Dona Concheta, a inspetora de alunos e nossa algoz, estava ali no pé da escada, carimbando cadernetas e nos viu! Não tinha como colocar a culpa em nós…
E com o maior cinismo desse mundo, comentamos: "Oh, o que será que aconteceu?!". E fomos caminhando calmamente, com uma vontade quase incontrolável de correr para ver se realmente não havia feito estragos.
Ao chegarmos à metade do caminho, sai do banheiro o Renato, um amigo nosso do científico, com as calças ao meio das pernas,em meio a uma fumaça como se fosse as portas do inferno, completamente atordoado e sem noção do que tinha acontecido. Ele estava lá dentro quando "nosso" filho detonou.
Um misto de hilário com temor por algo que pudesse ter acontecido ao Renato, foi ver a cena da figura dele uma pessoa de meia estatura, muito calmo e de fala mansa, cabelos claros, de blusão verde sobre uma camisa branca social longa nas fraldas, o que não mostrava sua genitália, andando tonto como um bêbado e de calças arreadas.
Devagar, chegamos nele, o acudimos, quase estourando de rir por dentro, junto com a Dona Concheta. O levamos pra fora, rapidamente ajudamos a vestir as calças e nada que depois de que em 5 minutos estivesse normal.
Pelo menos umas cinco ou seis classes abriram suas portas para saber do acontecido, mas, como fomos os primeiros a chegar, não houve tempo para verem o Renato naquele estado.
A bem da verdade, testamos algumas vezes depois do acontecido o tempo do pavio e não descobrimos o que motivou o atraso. O Ovo ainda brincou: “É porque foi um cigarro Hollywood… Se fosse um Minister, não dava erro!”.
Separadamente, mais tarde falamos a ele de quem era a autoria do fato, só depois de nos prometer sigilo absoluto. O Renato, Russo era o seu sobrenome, riu calmamente, olhou pra nós dois e pediu também pra não contar pra ninguém de como nós o havíamos o visto sair daquele banheiro.
Os três períodos do Firmino, manhã, tarde e noite ficaram sabendo do fato, dos autores e do estado que ficou a vítima naquela mesma semana.
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