Para um andarilho como eu fui nos anos 1950-60, banheiro era o refugio para as necessidades fisiológicas. Conheci praticamente todos os banheiros do centro da cidade e alguns dos bairros do Itaim, Vila Olímpia e Vila Nova Conceição, por onde eu circulava quando não ia ao centro da cidade. Cada qual com suas qualidades usuais. <br><br>A cada refugio onde "o covarde vira valente e o valente vira covarde" tinha uma historia diferente. A coisa onde a coisa ficava apertada, era aonde havia um só banheiro e alguém estava fazendo suas necessidades mais do que o normal ou então lendo Gibi. Batida na porta era o mais comum em acontecer acompanhado de: E aí cara, vai ou não vai? Tá saindo prego?<br><br>Frases, expressões e sussurros estranhos aconteciam de fora, e era ouvido por quem estava lá dentro. Tinha também gente que gemia Huuuuuuu! Outros com a mão no bolso ou no bagageiro diziam em voz baixa. Filho da P…Sai logo!<br><br>Nos banheiros públicos havia mais espaço com os chamados “mijadores individuais” com o aparelho receptor a setenta centímetros do chão, ou então um único “mijador” coletivo, de dois a três metros de extensão na mesma altura. Aí cabia mais gente a fazer suas necessidades líquidas.<br><br>Tinha um porém…. Alguns homens ficavam horas a fio "mijando" todos eles olhando o vizinho da esquerda ou da direita, para "ver como ele mijava". Porém estimulava sua mangueira para ver se o liquido saia, mais rápido. O estranho era que por mais tempo que lá ficasse era como se estivesse na lei seca.<br><br>Nos bares do centro da cidade havia muita gente que usava o banheiro para suas necessidades. Isso irritava os funcionários e principalmente o que trabalha no caixa, pois era ele o "dono" da chave. E de longe sabia que quem estava entrando, era um cliente do banheiro.<br><br>Aí era um momento constrangedor para aquele que já estava fazendo uma careta estranha, símbolo da necessidade fisiológica. Depois de alguns trocos dados aos clientes da fila, o caixa dava a chave do WC. Ela vinha acompanhada de uns 40 centímetros de cabo de vassoura. Meu restaurante preferido era ao lado da Galeria Olido, na Rua Don José de Barros. Um dia ao pegar o pedaço do cabo de vassoura, digo a chave, passando perto de algumas mesas ouvi: Vai limpar o banheiro xará?<br>Para muitos, o banheiro era um recinto onde o ser solitário ficava pensando no que fazer nas noitadas de paqueras. Fazia o <i>footing</i> no quadrilátero do centro novo, ou então ia à boca do lixo, para ver se encontrava a japonesa que diziam ter aquilo atravessado.<br><br>Mas não dava tempo para pensar muito, pois quando o silêncio parecia uma verdade, já vinha um espírito de porco a bater na porta, e gritar, “Vai ou não Vai! Tá lendo Gibi ou Noticias Populares?” A resposta vinha lá de dentro de forma irônica. “To conferindo o bilhete da loteria federal”.<br><br>Mas o que mais me chamava atenção era o que estava escrito nas portas por parte dos poetas de latrina. Besteiras mil. Quanta coisa hilária estava escrita naquela porta cheia de rabiscos. Quando o produto interno estava duro e grosso que arranhava as paredes do cano de esgoto, a coisa não era nada agradável, porém quando o produto interno era de dimensões normais e pastoso, aí ficava uma delícia ler tudo o que a porta continha.<br><br>No inicio dos anos 1960, estava eu para entrar num banheiro de bairro. Era Vila Nova Conceição já um bairro nobre da cidade. Estava nas proximidades do Cine Radar na Avenida Santo Amaro, a direita de quem ia para a Avenida Brigadeiro Luiz Antonio. Achei por bem entrar no Zé Carioca, o restaurante mais badalado da região, onde a pizza tinha o sabor idêntico à do Bixiga.<br><br>Já no banheiro e sentado no Celite Boca Larga, reservando uma folha de jornal para fazer uso na parte final, lia um amontoado de besteiras escrito por pessoas que eu imaginava não existir naquele bairro. Ofensas a maridos traídos, piadas como: Este é um local solitário, onde o covarde se julga valente, e onde o valente se caga. <br><br>Contavam também a piada do japonês que ao bater na porta ouviu o espanhol dizer: Ta-ocupau! O japonês perdeu a vontade na hora. Ta-rôco!<br><br>Tinha também telefones de pessoas querendo companhia feminina e, de colunas do meio querendo uma beirada na parte mais delicada do homem.<br><br>Mas me chamou atenção foi um espaço vazio, aonde uma pessoa séria chegou e escreveu: – "Mentalidades putrefatas, de pensamentos sórdidos, guiam dedos nessa porta, expondo-se ao negrume de suas idéias".<br><br>E-mail do autor: [email protected]