Porque sou corintiano?

Porque sou corintiano? Nunca soube exatamente. No entanto, reporto-me aos idos anos 40, quando por motivos de ordem econômica meu pai, um modesto ferroviário da São Paulo Railway Company (SPR), alugou um sobradinho na Rua Venâncio Aires na Vila Pompeia onde fomos morar. Talvez possa parecer estranho que, um moleque de apenas cinco anos de idade, morando atrás do Palestra Itália, frequentador assíduo do clube sem ser sócio é claro, apenas pulando o muro da Rua Turiassu como todos os demais moleques da rua, e chegando a jogar no infantil sobre a direção do Tamanqueiro, um mineiro guardador de chuteiras que morava nos fundos do campo onde hoje são as piscinas. O fato de frequentar o clube regularmente e consequentemente pela circunstância do fato, eu deveria ser palmeirense.

Porém, não era! Sendo descendente direto de imigrantes italianos, nove irmãos do lado paterno e 11 do lado materno, todos italianos de nascimento, pela lógica eu deveria ter simpatia pelo Palmeiras. Mas como é que eu me tornei corintiano? Provavelmente São Jorge, o cavaleiro, do dragão, tenha tido alguma influência espiritual sobre a minha cabeça. Acredito que deva ter sido alguma inspiração divina! Na minha meninice, como grande frequentador e participante da Sociedade Esportiva Palestra Itália, às vezes rebusco na memória, mas não consigo encontrar uma resposta adequada para esse fato intrigante.

Acho talvez que foi pelas balas de figurinhas que eram vendidas naquela época, durante o desenrolar da Segunda Grande Guerra Mundial na década de 40 e que minha mãe havia comprado no empório do Badico uma caixa completa com cem unidades de balas com figurinhas de futebol juntamente acompanhadas de um álbum para colecionar. Quando adoecia, geralmente acometido de amidalite, minha mãe para me manter quieto na cama em repouso absoluto por recomendações do farmacêutico, deveria ficar quieto com um lenço embebido no álcool envolto no pescoço, e um comprimido de Salofeno (remédio da época) para abaixar a febre.

Naquele tempo o tratamento para a dor de garganta era geralmente feito assim, ou na melhor das hipóteses com umas rápidas e boas pinceladas de iodo que o farmacêutico do bairro costumava aplicar na molecada. Naquela época meu pai já trabalhava há tempos na São Paulo Railway (SPR) inglesa e ele costumava frequentar nos seus raros domingos de folga o Nacional Atlético Clube no quadrilátero na Rua Comendador Souza, próximo da Avenida Santa Marina, time criado por ferroviários e dirigentes da Estrada de Ferro cujo primeiro jogo foi contra a Companhia de Gás de São Paulo.

Em 16 de fevereiro de 1919, os funcionários da São Paulo Railway, incluindo o meu pai, organizaram um time de futebol com o nome da própria companhia. Contudo, o clube só viria a participar do Campeonato Paulista de Futebol em 1936 pela Liga Paulista de Futebol (LPF), hoje Federação Paulista de Futebol, quando obteve a nona colocação entre os 11 participantes. Contudo, em 1939, o SPR obteria melhor colocação no Campeonato Paulista em um honroso quarto lugar, atrás apenas do Corinthians, do Palestra Itália e da Portuguesa de Desportos, além do melhor ataque. Seis anos depois, Passarinho seria o único jogador do time a conquistar a artilharia de um Paulistão, marcando 17 gols, a mesma marca de Servilho de Jesus do Corinthians.

Em 1946, a concessão da ferrovia dada a Estrada de Ferro São Paulo Railway Company (SPR) pelo governo brasileiro termina e a estrada é nacionalizada. O clube passa pelo mesmo processo. No seu primeiro jogo com nome e uniformes novos, o SPR Atlético Clube disputou um amistoso com o Clube de Regata Flamengo, jogando o primeiro tempo com este nome e o segundo como Nacional Atlético Clube. Com o Pacaembu lotado, o time acabou perdendo por 4×2. O Estádio Nicolau Alayon na Água Branca, na hoje Marques de São Vicente (com capacidade para cerca de 11.500 pessoas), de propriedade do clube, é um dos únicos no Brasil a homenagear um estrangeiro.

O Nicolau Alayon, chefe do meu pai, era uruguaio de Montevidéu, e foi um dos mais ferrenhos entusiastas dirigentes do time da Água Branca. Talvez tenha tido alguma influência de meu pai que era simpatizante do Nacional Atlético Clube e do Corinthians Paulista, que eu tenha me transformado corintiano. De qualquer forma, o fato de ser corintiano quando moleque ainda, o meu jogo de botões arrancados da capa de chuva de meu pai, já trazia escrito sobre eles com tinta preta o nome dos jogadores daquela época.

Outro dia, recordando o time de botões, campeão do IV Centenário, deparo-me na mente com a figura do brilhante centroavante Oswaldo Silva, mais conhecido como Baltazar, o Cabecinha de Ouro. O Baltazar iniciou sua carreira no Jabaquara time de Santos e chegou ao Corinthians em 1945 e começou como meia direita, mas logo passou a centroavante, posição que se consagrou.

Outro grande futebolista, o Gilmar dos Santos Neves, que atuava como goleiro, considerado um dos melhores futebolistas de todos os tempos em sua posição, e por ter jogado no Corinthians durante toda a década de 50; outro grande ícone do Corinthians, o Cláudio Christóvam de Pinho também, conhecido como o "gerente", por ser o principal líder do Corinthians dos anos 40 e 50. Marcou 306 gols com a camisa do timão, tornando-se o maior goleador da história corintiana; jogou ao lado do meia direita Luizinho, do Rafael, Carbone e Simão; outro destaque era o Luiz Trochillo, o Luizinho, que teve também uma histórica passagem pelo Corinthians Paulista. Era conhecido como o "pequeno polegar" devido a sua baixa estatura, mas um exímio driblador e considerado como o maior ídolo do clube; mais um destaque: o Rodolfo Carbone, famoso meio esquerda, atuando no Corinthians de 1951 até 1957 marcando 135 gols; Idário Sanches Peinado revelado nas categorias de base do Corinthians, "Idário" como era conhecido, subiu para o time principal em 1949. Era visto pelas torcidas adversárias como um carniceiro, porém pela Fiel era considerado como um verdadeiro deus da raça. Ganhou o apelido de “sangue azul” por sua origem espanhola, era o lateral direito do Timão; Clovis Touguinha dos Santos, ou simplesmente "Touguinha", outro zagueiro do Corinthians na década de 50; Roberto Belangero um lateral e meia defensivo extremamente habilidoso, considerado um dos melhores volantes da história do Corinthians. Jogou de 1947 a 1960 sendo também campeão do IV Centenário.

Acho se não estou enganado devo ainda me lembrar da escalação do time do Esporte Clube Corinthians Paulista campeão do IV Centenário da Cidade de São Paulo: Gilmar, Murilo e Julião, Idário, Touguinha e Roberto. Cláudio, Luizinho, Baltazar, Carbone e Souzinha, depois Mário. De ambas as formas, hoje, decorridos 70 anos passados de um sonho de criança ou de uma realidade concreta de adulto o fato que, apesar de não saber exatamente como me tornei corintiano, continuo com muito orgulho fazendo parte da grande nação dos 30 milhões de loucos por ti Corinthians.

E-mail: [email protected]