Por que São Paulo?

Sou incitado com frequência a responder o que São Paulo tem de tão bom, porque dela não consigo me separar e o que me causa tanto fascínio. Neste caso, a verdade não soa nada verossímil. Gosto de São Paulo tão somente por Ser São Paulo, nada mais. Não que isto seja pouco.

A nada que objetivamente se possa visualizar posso creditar minha enorme admiração pela cidade. A verdade, pura e simples, é que não sei o que tanto me atrai em São Paulo. De qualquer sorte, tentarei esboçar uma espécie de "panegírico paulistano", a fim de justificar meu apreço pela Paulicéia.

Primeiramente, o que mais me fascina é o que São Paulo representa para mim: absolutamente tudo. Quando estou em outra cidade, voluntária ou involuntariamente, meu cérebro é quase que obrigado a compará-la com São Paulo. Inevitavelmente, o trânsito parece devagar demais, as pessoas diferentes, as calçadas diferentes, a cor dos táxis “berrante” por demais.

Se estiver frio, penso de imediato que a "minha" São Paulo traz o confortável ar dos trópicos. Se, por outro lado, a cidade for quente, lembro o quanto é bom o friozinho de São Paulo, ainda que chuvoso.
Em suma, é como se a incompletude "geral e irrestrita" tomasse conta de mim. Nada parece ter sentido.

Além disso, me fascina a capacidade que São Paulo tem de ser ela mesma, sem precisar se esforçar para parecer alguma coisa. "Se o Rio Tietê não lhe parece agradável, problema SEU!" É como se São Paulo estivesse a todo o tempo "pensando" desta forma. A beleza não está em suas preocupações mais urgentes. Afinal, o que é belo está sempre tendendo, potencialmente, à decadência.

Ninguém precisa cantar aos quatro ventos que São Paulo continua linda… São Paulo não precisa provar nada a ninguém. Não sei por que, mas isto é simplesmente incrível. E isso, vejam vocês, muitos não compreendem. "Como alguém pode gostar de um lugar como esse?" Nada me irrita mais do que esta irônica pergunta, normalmente formulada por habitantes de cidades que se esforçam para "ser" alguma coisa.

E a minha resposta? É aí que surge o problema: São Paulo é tão complexa (tão São Paulo!) que é difícil enumerar, a toque de caixa, as razões pelas quais gosto de São Paulo. "Estranhando aquilo que não é espelho", estes forasteiros supostamente felizes em suas respectivas cidades medianas concluem rapidamente que não temos motivo para gostar de São Paulo.

Nada mais errado que esta conclusão. Quem gosta de algum lugar porque tem praias lindas, ou porque a cidade funciona, é limpa e organizada; não gosta da cidade em sua essência, mas do reflexo que a cidade produz neles mesmos. Explico: Não gosto da cidade X porque seu trânsito é bom. Gosto de minha vida sem o stress do trânsito.

O inegável é que, quem gosta de São Paulo gosta da cidade. Não do que ela proporciona, da vida que se pode ter. Pouco importa se demoro quase duas horas para chegar em casa, se moro em São Paulo. Esta frase, aparentemente singela, desnuda o sentimento de gostar de São Paulo, e não da vida que temos em São Paulo.

Analogicamente minha cidade é a minha cidade, assim como filho é filho, mãe é mãe e etc. Ninguém ama sua família porque lhe traz benesses. O mesmo ocorre com quem gosta de São Paulo. E, para gostar de São Paulo não se exige muito. Basta olhar para além da primeira aparência.

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