Por que nunca falei de flores?

(As brumas da ditadura)

Antes que digam que eu nunca falei de flores, falo agora. Nunca falei antes, porque não sei lidar muito bem com perdas. Na perda sinto-me lesado. Sou egoísta e possessivo? Sou! Perder alguém provoca em mim uma tremenda raiva. Eu, sem lágrimas ou qualquer outra emoção que não seja de fúria interior, emudeço. Cancelo a dor – não o fato. Calado, deixo a vida seguir o seu fluxo. Mas não esqueço. E, como tudo aquilo que não é resolvido fica sem desfecho, velhos fantasmas sempre voltam para me assombrar.

Do ponto de vista histórico, nunca tive problemas em falar daqueles anos. Como ser humano, nunca tive problemas, agora e à época, em falar sobre a ditadura. Quanto às experiências pessoais, sempre me foi difícil e doloroso falar a respeito. Inconscientemente eu reneguei esse período. Por quê?

Porque foi menos pela raiva que os anos acalmaram e mais pela dor que o tempo pouco ameniza.

E os fantasmas saídos das brumas da ditadura me assombraram até o dia 16 de dezembro de 2008, quando resolvi abrir e reler os meus três cadernos de anotações dos anos 60/70. Não os abri para uma agradável volta ao passado. Era como uma exumação. Mais que isso, era entrar em uma morgue e reconhecer antigos cadáveres. Páginas e páginas de relatos, anotações truncadas, trechos taquigrafados, que, quais ladainhas e fórmulas deram o início ao exorcismo.

Até o dia 16, tudo o que se referia à ditadura resumia-se à lembrança de velhas fotos amarelecidas pelo tempo em revistas e jornais; a velhos filmes exibidos à época ou documentários sobre a história desse período. Na memória, eu retive, por opção, uma ou outra situação hilária, como a ação de jogar bolinhas de gude ou de aço no chão do Largo de São Francisco e rir dos tombos que os "milicos" levavam ao serem derrubados dos seus cavalos, ou do dia em que a cavalaria subia a ladeira General Carneiro, de volta aos quartéis: os cavalos andando e, ao mesmo tempo, fazendo as suas necessidades. Alguém então grita para os "milicos": Olha aí, vocês estão derrubando as marmitas. A frase provocou gargalhada e os "milicos" partiram para cima do povaréu, jogando os cavalos em cima de todo o mundo e distribuindo cacetadas indiscriminadamente. Lembrava a cena toda, mas omitia para mim mesmo os ferimentos causados na população, os gritos, o pânico…

Agora é preciso enfrentar aquelas duas décadas que eu, por comodismo, envolvi nas névoas do esquecimento. Mas que nunca consegui esquecer.

Na dolorosa ação de rememorar enfrentei os velhos fantasmas. Comecei com a lembrança dos conhecidos que desapareciam; as lembranças dos que desapareciam e, depois, apareciam em caixões lacrados para que a família não visse as marcas que a tortura deixara no ente querido. Pensei em tantos velórios rápidos em que fui – muitos realizados na capela do próprio cemitério. E entre os parentes e amigos estavam – era comum – os não convidados: os agentes da repressão…

Lembrando, assustei-me com a campainha do telefone que, na memória, soava quase sempre entre onze e meia-noite. Som insistente e de mau agouro: "Alô?". "Oi, é C…". "Fala!". "Estou ligando para avisar que M… foi encontrado.". "E?…". "Está no IML. A família foi lá buscar. Estou ligando também para dizer que os "omi" estão no "pedaço". Melhor não ir ao velório…". "Está bem.". "Até mais.". "Até…".

Dor e raiva. Pela perda e por não poder nem ao menos dar um último adeus a um amigo. Ir seria correr o risco de ser preso. E tantos inocentes foram presos e torturados por terem comparecido a esse tipo de velório.

Continuei exorcizando o meu passado. Vi, na tela da mente, a foto de Eremias Delizoikov na lista dos procurados. O garoto, poucos anos mais novo que eu, havia caído na clandestinidade. Morávamos tão perto, brincávamos juntos na rua. Ao contrário do irmão Demétrio que era mais extrovertido, Eremias era mais centrado. Como foi parar na clandestinidade? Por quê? Nunca saberei. Os mortos não falam…

Muitos anos depois, soube que ele havia sido morto pela repressão, no Rio de Janeiro, e enterrado com outro nome no cemitério São Francisco Xavier. No momento em que me contaram, eu só conseguia fixar-me nas lembranças de que comprava sapatos na loja do pai dele e no medalhão com dois "D" fixado na porta de ferro do sobrado, construído pelo avô, onde ele morava.

Pensamentos patéticos mascarando a dura realidade. Perdeu-se um elo da minha infância e adolescência. Eremias morreu e virou nome de rua, no Rio.

Minhas lembranças saem do individual e vão para o coletivo. O terror predominava. Delatava-se por motivos banais. Empresários, por motivos escusos, denunciavam funcionários por subversão, como elementos nocivos, comunistas. Soube-se mais tarde que isso servia, em alguns casos, para eliminarem empregados com muito tempo de serviço sem ter que pagar indenizações… Como o fora na Inquisição, a ditadura serviu de pretexto a tudo.

De repente, como em um filme de ação, todas as lembranças vêm à tona em toda a sua crueza. Sem bloqueio, sem fantasia, sem retoques. Rápidos "flashes" sem cronologia explodem na memória.

Lembrei da perseguição e tiros, na Rua Monte Alegre, do campus invadido, das correrias em busca de refúgio.

Lembrei de haver estado lá, na Maria Antonia (como "voyeur"), e que durante o tumulto um tiro derruba alguém. Corri, como muitos, pelas ruas e fui parar nos jardins da Santa Casa. Vivi um outubro de sangue e destruição. Um outubro que eu gostaria que não tivesse existido. Lembrei da invasão do TUCA, o fechamento do CRUSP, os comícios da UNE… Siglas dançaram em minha cabeça: CCC, TFP, ALN, MAC, MRs… E números: 1964,1968; AI5…

E, depois de tantos anos, assumi que ainda me doía a bofetada sonora que levei, dentro da "Boite Saloon" (Rua Augusta), quando esta foi invadida, numa "blitz". Era o tempo em que todos eram culpados até provar a inocência… Tantos foram os empurrões contra a parede, os "mãos para a cabeça", os "para e encosta aí" pelas ruas e praças da cidade. Tudo era perigoso. Nada era divino e nem maravilhoso.

E a memória me tira da Mooca e me leva até o Ipiranga, onde fui visitar amigos na Rua Xavier de Almeida. Encontrei os amigos em pânico, assustados. Policiais, poucas horas antes, mataram, na esquina da Padre Marchetti com a Xavier, o "terrorista" Flávio de Carvalho Molina. Os restos de Flávio, anos mais tarde, foram encontrados numa das covas clandestinas do Cemitério de Perus.

E a memória leva-me ao "Redondo", um bar na esquina da Ipiranga com a Consolação. Lá se desenvolvia a cena, que antes eu achara hilária e que, agora, se tornou patética. Lá estava um grupo da "esquerda festiva" a falar do que fariam se fossem o fulano, ou o cicrano. Desfilavam suas coragem e bravura com ardor. Até que uma sirene ou aproximação do "carrão" jogassem água na fervura. Os bravos heróis empalideciam, "borravam-se" de medo. Desconversavam, largavam os petiscos e bebidas, escafediam-se. Voltavam uma ou duas horas depois, para continuar com a farsa de destemidos heróis. Assim são os covardes…

Lembrei com muita tristeza do Dema e da Camilinha: Dema foi preso e desapareceu. Incessantemente importunada pelos "omi", cansada de procurar o amante, ela caiu nas drogas e morreu de overdose, numa "cabeça de porco", lá na Baixada do Glicério.

Lembrei com desprezo, um Pelé subserviente a declarar que "Os brasileiros não estão preparados para votar.". E deliciei-me com a ironia dessa frase: pois quem não está preparado para votar, não está também preparado para governar… E, como sabemos, nenhum estrangeiro nos governou nesse período…

Minha memória pergunta-me: "E o Fleury?". E as lembranças respondem: "Com Fleury, Torquemada renasceu e instalou o Santo Inquérito no DOPS".

O templo maldito permanece com os seus fantasmas a vagar. Gritos ainda ecoam, fundidos àquelas paredes, assim como os risos sádicos dos torturadores.

Prédio maldito o do DOPS! Nem sempre ele foi assim. A obra de Ramos de Azevedo fora sinônimo de vida e de progresso: foi a primeira estação da Cia. Sorocabana. A vida ia e vinha por aquelas portas. Prédio Maldito! Por mais que o "maquiem", não conseguem apagar, dissimular o terror, a dor e os ecos do passado. Ali não há uma egrégora de energia, somente um buraco negro. Deprime.

Ali, enquanto intelectuais, cantores etc. que, na condição de exilados políticos, viviam as suas vidinhas em terras distantes, vidas anônimas, sem regalias ou defesa, insistiam em viver entre os "paus-de-arara", choques elétricos, mutilações, pancadas, o resto de vida que se lhes extinguia. A multidão dos anônimos jaz como indigentes e desconhecidos, sepultados em cemitérios públicos e clandestinos. Não voltaram dos seus exílios e nem foram recebidos com aplausos e toques de trombetas. Voltaram ao pó, mas continuam insepultos.

"E o Fleury?". Volta a memória cobrando. As lembranças respondem: "A Justiça foi feita. Enfartou, caiu na água e afogou-se. Morreu sozinho.". Ninguém se importou ou derramou lágrimas. No peito de todos, apenas um sentimento de "já foi tarde". E o povão dizia frases sussurradas, carregadas de maldições. Tenho ainda na mente, a voz clara e angustiada de uma mãe de torturado desabafando: "Que ele NUNCA encontre a paz!" Ao que, à época, respondi mentalmente: "Amém!"…

Disse, lá no começo, cancelo a dor – não o fato. Menti. Não propositalmente. É que nesta minha viagem ao tempo da ditadura fui percebendo que, além da dor, cancelei também a realidade do fato. Então, aceitando, não somente o fato, mas a realidade do fato, eu devolvi às minhas anotações, antes frias e impessoais, toda a carga de emoções que lhes havia negado. Saí da cômoda posição de observador para a de personagem real da minha história. E no dia 16 de dezembro, a raiva que esteve em mim por quarenta anos desapareceu. A dor passou, os fantasmas partiram. Ficou a calma e a velhice dos meus cadernos de anotações.

Agora posso falar de flores. E oferecer flores aos culpados e inocentes daqueles tempos sombrios. Não ofereço flores nobres, como as rosas ou lírios. Ofereço Malvas, que em terras de Espanha cobrem as sepulturas e servem de cobertor aos justos e injustos; puros e pecadores, perfumando-lhes o sono eterno.

As sombras se dissiparam…

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