A história fantástica de um caboclo brasileiro

São Paulo, 13 de outubro de 2008.

Nos anos cinquenta eu trabalhava na firma Borghoff S/A, sediada à Avenida General Olimpio da Silveira, 63/87, no bairro de Santa Cecília, capital de São Paulo, o local era próximo à Praça Marechal Deodoro.

Foi para mim a melhor empresa que conheci até hoje. Trabalhávamos tal qual uma grande família unida, com dedicação, prazer e muita alegria. Ela nos oferecia oportunidades, esperança de sucesso profissional, incentivos, promoções, salários satisfatórios e prêmios especiais àqueles que apresentassem as melhores idéias que viessem de alguma maneira melhorar nossas atividades.

Em 1956, após a belíssima confraternização (três dias em Caxambú), entre São Paulo e Rio de Janeiro, surgiu "O Farol", um anuário que narrava, em resumo, todos os acontecimentos interessantes ocorridos na Borghoff (São Paulo/Rio de Janeiro). O diretor honorário de São Paulo era o senhor Gustavo Borghoff, os chefes redatores eram Moacir Teixeira e José Carlos Vasconcellos. O diretor honorário do Rio de Janeiro era o senhor Guilherme Borghoff. O fundador da filial era o senhor Edison Cobalea, o redator chefe era Moacir C. Lopes. As colaboradoras ativas: diretoras do E. C. Borghoff, as ilustrações: Ronaldo Pellini.

Todos, sem exceção, poderiam colaborar com "O Farol", escrevendo poesias, piadas, histórias, fatos interessantes ou hilariantes etc. Pois bem, eu me atrevi e colaborei com a seguinte história publicada:

"Solicito-lhes o obséquio de concentrarem bem seus pensamentos, pois vou transportá-los em viagem pelos sertões do território brasileiro. Prontos?… Lá vamos!… Atenção!… Chegamos!…

Estão vendo aquela choupana lá no alto daquele morro, tendo ao lado direito uma palmeira e ao seu lado esquerdo um pomar? Viram? Bem, então eu vou contar-lhes um caso sucedido com seus ex-moradores.

O dono dela era um caboclo de aspecto sadio, valente, possuidor de um grande e bondoso coração, e como é de se esperar dos caipiras, crédulo e supersticioso ao extremo. Acreditava em fantasmas, mulas sem cabeça, sacis pererês e uma porção de coisaradas.

Permanecia em casa às noites e, se por acaso saísse, fazia questão absoluta de voltar antes de meia noite, pois era grande o pavor de defrontar-se com tais criaturas.

Pedro (é esse o nome do nosso amigo) vivia em companhia da esposa e cinco filhos, todos eram saudáveis e gozavam de grande felicidade, apesar da pobreza a que estavam sujeitos. Porém, a felicidade nunca vem completa, sempre aparece algo para atrapalhar e dessa vez a desgraça havia se hospedado em casa de Pedro, procurando atacar sem piedade o caçula Joãozinho, fazendo com que este amanhecesse adoentado e atormentado por alta febre.

Como sabemos, os caboclos são gente pacata e sossegada, só se lembram de acudir e pensar no doente quando o mesmo já está às portas da morte. Por isso mesmo é que o pobre garoto gemia e tal era o calor da febre que parecia querer transformá-lo em frango ou leitãozinho assado.

Lá pelas cinco e meia da tarde, Pedro resolveu ir à cidade em busca do médico. A viagem a percorrer levaria no mínimo duas horas. Sete e vinte! Eis que chega à porta do Dr. Faria, já cansado, suando por todos os poros, bate pesadamente à porta, espera alguns minutos e, finalmente, aparece uma senhora, mal encarada, trajando um vestido de lã pesado e de cor escura, olha para o nosso amigo e diz-lhe que o médico, seu marido, só estaria de volta dali a duas horas mais ou menos. Que fazer, meu Deus? – É, o remédio é esperar! Senta-se e nervosamente prepara uma palminha para distrair-se enquanto o dito não chega.

Nove e quarenta! Pronto! Até que enfim chega o doutor, que após ouvir a narrativa de Pedro receita-lhe um medicamento para ser adquirido na farmácia mais próxima, cuja distância que a separa dali é de nada menos uma hora e meia de caminhada.

Após executada a tal receita e a promessa do doutor que logo após o jantar iria à casa de Pedro, este empreende nova cavalgada que o leva à botica às onze menos dez minutos. Uma vez lá e pronto o remédio, toca a correr e chegar antes de meia noite a casa.

Já é grande a escuridão e, para completar, o céu cobre-se de densas nuvens. Pedro, já apavoradíssimo, nem liga a este fato e segue sempre com maior velocidade estrada afora, na esperança de estar em casa antes da hora fatídica.

O primeiro clarão do corisco rasga o espaço, trazendo atrás de si o estrondo do trovão, caindo também o primeiro pingo, o segundo, vai crescendo, aumentando de intensidade até transformar-se em pesado e violento temporal. A ventania parece querer tragar e fazer sumir tudo o que encontra em seu caminho. Que sorte! – diz o caipira ao deparar com uma minúscula cabana ao pé da estrada. Esporeando o cavalo, chega à mesma, encostando a porta atrás de si.

No interior da mesma, recolhe alguns gravetos que se acham espalhados ao redor e improvisa uma fogueira para aquecer-se e clarear um pouco o local, a fim de garantir-se melhor contra os maus espíritos.

Meia noite… E agora? Todo paralisado, com o sangue a gelar-se nas veias, quase mudo, o pobre homem aguarda os próximos acontecimentos, e tremendo cada vez mais consegue balbuciar o seguinte: Seja o que Deus quiser!

Nisto a porta se escancara, o único refúgio que ele encontra no momento é cerrar os olhos e mais nada.

Espera de olhos fechados o ataque e oh! Surpresa! Nada aparece! Admirado, aproxima-se ainda muito receoso da porta e consegue fechá-la, voltando ao ponto de partida de costas e sempre com os olhos grudados na parede, digo na porta. De repente, arregala os olhos e vê com espanto um frango todo depenado, que, sacudindo as asas e chegando-se à fogueira, pronuncia algo como:

– Que frio hein Cumpadre!!!”

e-mail do autor: [email protected]