Por onde andará o Vinicius?

Em meu último texto no SPMC eu disse que contaria as minhas pequenas histórias. E hoje a história é cheia de emoção e saudade. E o personagem principal dessa bela história de amizade é o Vinicius.

Vinicius nasceu em Tubarão SC e foi adotado por uma amiga de infância de minha mãe. O casal não podia ter filhos e a adoção foi o caminho encontrado para a realização desse sonho. Lembro-me da primeira vez que vi aquele bebê. Era um dia de Natal, ele era lindo, gorducho, coradinho, usava uma roupinha de linha cor de laranja. Eu devia ter uns cinco anos, na época, e me apaixonei por aquele pinguinho de gente. Nossas mães são catarinenses, mas, as duas se casaram com paulistas e mudaram para São Paulo. Nós morávamos no Belém e eles em Pirituba, o que facilitou o nosso convívio.

Vinicius foi crescendo e junto com sua personalidade doce e carinhosa surgiu uma criança hiperativa. Ele não parava, tinha raciocínio rápido, tocava o terror (risos). Estranhamente, sua mãe demonstrava uma total falta de habilidade com a sua criação. Ele apanhava muito, sofria agressões verbais. Às vezes, me parecia que ela descontava nele toda a sua frustração por não ter gerado filhos biológicos. Ele foi crescendo muito revoltado com a mãe. Respeitava muito o pai e era extremamente carinhoso com minha família.

Uma manhã, eu estava passando roupa no meu apartamento no bairro do Belém. Ligaram-me do Hospital de Pirituba. Vinicius tinha sofrido uma overdose e, ao acordar, pediu que ligassem para mim ou para minha mãe. Eu e mamãe pegamos o carro e nos mandamos para o hospital. Quando chegamos, ele estava sujo, o cabelo muito duro, muito magro, e nos abraçou bem apertado. Nessa época, ele já devia ter uns 15 anos. Mas, o senti mais frágil do que o bebezinho com roupa cor de laranja que conheci.

Meu pai tinha uma pequena empresa e resolvemos contratá-lo como “office-boy”. Ele nos surpreendeu. Era responsável, pontual, prestativo. Fazia tudo o que eu pedia. Muitas vezes, precisávamos de algo difícil, ele olhava pra mim e dizia: “Pode deixar que eu consigo. Por você eu consigo”. Nunca sentimos falta de um centavo. Ele nunca se apropriou de nada. Foi um período muito feliz. No final, da tarde íamos a padaria comprar coisinhas gostosas para o lanche da tarde. Ele era o meu companheirinho. Franzino, baixinho, olhinhos brilhantes.

Durante algum tempo achei que ele estava limpo. Mas, depois comecei a perceber alterações no seu comportamento. Logo, ele resolveu que deixaria o emprego para "voltar a estudar". Sentimos a sua falta. Até meu sobrinho, na época com 3 anos, chorou quando ele foi embora. Começamos a nos ver com menos frequência. Sai de São Paulo e fiquei sabendo que ele havia mudado para o Rio de Janeiro. Nunca mais encontrei meu amiguinho. Acabei perdendo contato com a sua família. No final, do ano consegui reencontrar a sua mãe que me disse que ele realmente caiu no mundo das drogas. Ela não entra em detalhes sobre o paradeiro do filho. Creio que algo grave aconteceu. Apenas me disse que faz sete anos que não o vê e que acha que ele deve estar morto.

Tenho que confessar que durante todos esses anos não imaginava que Vinicius tivesse um destino diferente. E, inconscientemente, procurava seu rosto nas matérias de TV sobre a Cracolândia, ou reportagens policiais. Meus pais compartilhavam dessa mesma inquietação. Uma vez, perguntei se ele tinha vontade de conhecer a mãe biológica e ele disse: "Não! Ela me abandonou. Agora não preciso dela.” Acho que o tratamento da mãe adotiva o fez sentir rejeitado pela segunda vez.

Ontem, me bateu uma saudade enorme do meu querido. Cheguei a chorar de emoção e saudade. Engraçado, isso nunca havia acontecido. Então, antes de dormir, resolvi escrever dois finais felizes para o Vinicius. Se ele estiver por aqui, espero que tenha virado um trabalhador, que tenha uma mulher batalhadora, que faça um almoço gostoso no domingo. Que tenha dois filhos saudáveis e equilibrados e que tenha encontrado a felicidade. Se ele estiver nos braços do Pai, espero que, como pai amoroso, ele não o tenha rejeitado pela 3ª vez. Que ele tenha acolhido aquele bebezinho de roupinha cor de laranja em seus braços e o colocado para dormir em uma nuvem bem macia e que meu amigo tenha encontrado a tal felicidade.

Que Deus esteja com você Vinicius!

E-mail: [email protected]