Por onde anda a moça do Kadett vermelho?

Falei muito no Belenzinho. Mas não esqueço a importância do Tatuapé na minha vida. Além de ter me acolhido nos meus primeiros 40 dias de vida no sobradinho da Apucarana, foi o Tatuapé que me abrigou 22 anos depois, num momento muito delicado da minha vida.

Vivíamos uma vida confortável, meu pai tinha uma pequena empresa. E como todo "self made man" que se preza, nutria o sonho de toda a família trabalhar com ele. E assim foi feito. Nosso escritório ficava num sobrado amplo da Marques de Abrantes (Belém). Morávamos num bom apartamento. E de repente, nosso dinheirinho coloriu e nosso sonho ruiu. Junto com esses sonhos e as reservas financeiras, foi também o nosso conceito de uma família unida e feliz. O amor saiu pela janela quando a dificuldade bateu à porta.

Meus pais se separaram. Meu pai mudou de estado. E eu e minha mãe fomos à luta. O primeiro passo foi mudar de apartamento. Mudamos para um apartamento modesto na Rua Santa Virginia, no Parque São Jorge. Levamos apenas alguns móveis e o desejo de recomeçar. Lembro-me que quando o caminhão descarregou os móveis, disse à minha mãe: "Algo me diz que aqui serei feliz”.

O começo não foi fácil. Mas logo consegui um bom emprego que, além de um salário razoável, me oferecia algumas mordomias. Entre elas um Kadett vermelho. O Kadett era o carro da moda e eu fiquei conhecida como “a moça do Kadett vermelho”.

Realmente fui feliz nos dois anos que ali vivi. Todo recomeço nos causa medo, mas também é muito estimulante. Ali vi a importância de ser simplesmente humana. Sem máscaras, sem artifícios.

Ali vi meus amigos me apoiarem e me amarem ainda mais. Ninguém, absolutamente ninguém se afastou de mim, porque a sensação não era mais de festa ou porque o dinheiro havia sumido. Todos permaneceram ao meu lado.

Ali conquistei novos amigos. Vivi um grande amor. Cresci, amadureci, enfrentei a vida com coragem e sabedoria.

Em 28 de fevereiro de 1994, saí definitivamente de São Paulo. Meu destino foi o Centro Oeste, inicialmente Goiânia, depois Brasília. Mas sinto saudade daquele apartamento pequeno, da barulheira da torcida do Corinthians. Da falta de lugar para estacionar da Santa Virginia. Do Mercadinho do Amadeu que ficava (ou fica) na Rua São Jorge, dos 99 sabores de pizza da Pizzaria Florão, do namorado ciumento que me esperava de manhã embaixo do prédio pra verificar o comprimento da minha saia.

E, por incrível que pareça, cada vez que chego ao Tatuapé tem alguém que fala: "Por onde anda a moça do Kadett vermelho?”.

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