Ela sempre chegava sem falar ou olhar para ninguém, e rapidamente entrava em seu prédio que ficava em frente ao nosso murinho. Era comentada por todos e as apostas de quem seria o primeiro a sair com ela aumentavam a cada dia.
Era mais velha que nós, garotos da Turma da Barão. Era do meio artístico, tinha trabalhado no filme do Roberto Carlos (“Em Ritmo de Aventura”, 1968). As más línguas diziam que tinha um parentesco próximo com o deputado Herbert Levy e era comentada por todos como uma "deusa".
Estou falando da Marisa Levy; alta, loira e um corpo perfeito aos olhos dos garotos ingênuos, tão ingênuos que, naquela época, ainda precisavam pedir permissão para namorar qualquer garota.
Não lembro como aconteceu, mas meu amigo Ricardo Fanganiello, que era mais velho, precisava de alguém para sair com duas amigas e me convidou para acompanhar, e precisava ser longe da turma para não comprometer as "amigas".
Chegado o dia, fomos ao encontro das amigas e, para minha surpresa, uma das garotas era a própria Marisa Levy, a mulher dos sonhos de todos os garotos da Barão. E para minha alegria, era uma mulher normal, que conversava comigo, ria, bebia. Aquela noite deveria ser a primeira e última, já que eu era o mais jovem da mesa e estava ali como temporário, mas estava rezando em todas as religiões para que a noite nunca terminasse.
Quando chegou a hora das despedidas, de manhã, eu precisava trabalhar e, já admirando pela última vez “minha deusa", fiquei perplexo com o convite para sair novamente e, mais do que depressa, marquei para sair no mesmo dia, à noite, e uma das condições para sairmos era ninguém da turma saber, então, os encontros eram sempre longe do murinho.
Na primeira vez que saímos fizemos uma maratona parando em dezenas de barzinhos (lugares agradáveis que existiam para conversar e beber) durante a noite toda e varando a madrugada até o amanhecer, quando eu a deixava em casa e ia direto trabalhar, sem dormir.
Esta maratona durou mais de um mês; todo "santo dia" eu saindo direto da noitada para trabalhar, sem dormir e cochilando no trabalho. Assim, aquele sonho virou um pesadelo e, antes que virasse uma tragédia, eu procurava maneiras de terminar este "romance". Então, “minha deusa" abreviou aquilo que seria minha despedida (temporária) da vida noturna.
Naqueles tempos e nos tempos de hoje também, para terminar com um "romance temporário" bastava pronunciar as palavras: "casamento", "filhos", "não jogar futebol com os amigos", etc. que o homem percebe que pode acabar o sonho de solteiro e despertar para a realidade. E foi o que aconteceu comigo…
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