Pode ser verdade e até científico que a memória remota é a que mais fica marcada em nossa mente. No entanto, quando tentamos lembrar os fatos ocorridos em nossa infância há mais de 50 anos, certa névoa parece encobrir as imagens, certos nomes não são mais lembrados, ocorre certa imprecisão de datas, mas jamais conseguimos nos esquecer do clima, dos aromas e até dos sons de alguns momentos enraizados em nossas lembranças, instantes doces ou amargos, simples ou complexos…
Na verdade, o que interessa mesmo à lembrança são apenas os momentos nostálgicos e marcantes, aqueles memoráveis e que nos trazem ternura e saudade.
Nasci lá pelos idos de 1953, no bairro da Ponte Pequena, numa vila chamada Alice Rodrigues, travessa da Rua Porto Seguro, talvez casa número 5 ou 6… Pelo o que me lembro, tinha um porão onde minha tia criava vários gatos…
Ali, numa bicicleta de um pedal só, porque o outro não resistia a qualquer solda, levei meus primeiros tombos, que foram piorando quando andava numa Merck Swiss e depois numa "potente" Caloi sem marchas.
A Travessa Particular Alice Rodrigues, esse era o seu nome exato, obviamente era de propriedade do Sr. Rodrigues, que alugava as casas, que davam fundos para uma espécie de cortiço onde se alojavam imigrantes e que era caminho obrigatório para a Associação Atlética São Paulo, glorioso clube de remo e de outros esportes, abrigando, pelo que diziam, a primeira piscina da cidade.
Não há como esquecer, ainda, da Rua Guaporé (minha segunda residência) e da Rua Dom Rodó, onde ocorriam as peladas de futebol da garotada, que desafiava os perigos ao se aventurar num braço do Rio Tietê, que tornava o Campo de Futebol da Peixe uma espécie de ilha, onde até um padre da Igreja das Almas jogava futebol.
Hoje o Metrô, em sua parte aérea, parece sobrevoar essa região histórica, ao menos histórica para minha mente, porque ali vivi boa parte da minha infância e adolescência.
Nunca irei me esquecer de personagens reais, mas que poderiam pertencer ao folclore da capital, como a "Isabel", senhora pobre, moradora de uma maloca à beira do Rio Tietê, quase debaixo da ponte do trem que ia para a Cantareira, e do "Virgílio", que diziam ter sido antigo escravo e que já tinha mais de cem anos.
Não sei se isso era verdade, mas Virgílio (um catador de papéis) contava histórias fantásticas e conversava com todos os moradores, com dificuldade, não só em razão da idade que parecia ser avançada, mas porque não tinha um dente sequer na boca.
E Isabel, a moradora da maloca, diziam que salvou uma criança que ia ser atropelada pelo trem, ou ia se afogar, ou ser atropelada, algo parecido. Mas era tida por heroína, independentemente de sua pobreza e humildade.
Nesta minha viagem no tempo, talvez esteja chegando em 1960, 1961 ou 1962, com grande lembrança da Lagoa da Portuguesa, que podia ser atingida remando barcos e catraias desde o pontão da Atlética, num Rio Tietê já um pouco fétido, mas onde ainda conseguiam viver alguns bagres e muitas cobras d'água, que eram reunidas às dezenas em vidros e soltas ameaçadoramente nos barcos, a fim de assustar os tripulantes de primeira viagem, normalmente moleques convidados a participarem dessa travessia fluvial, que iniciava no pontão do clube e terminava na lagoa da Portuguesa, com retorno garantido sem cansaço… Levando em conta que, na volta, a correnteza do Rio Tietê estava a favor dos retornantes, confluindo no sentido da Ponte Grande e do Clube Floresta (antigo Espéria, que passou a ser Floresta na época da Segunda Grande Guerra e voltou a se chamar Espéria).
Ah! Ia me esquecendo: o clube Atlética ficava próximo ao ponto final da linha de ônibus norte-sul.
Quanta saudade. Quanta saudade das festas juninas da Portuguesa e dos bolinhos de bacalhau, do cine Haiti no Canindé e até das enchentes que ocorriam nas ruas Tapajós, Luiz Pacheco, João Pacheco que, certamente, garantiam um ou dois dias sem aula no Externato Santa Rita de Cássia, lá na Rua Pedro Vicente, defronte ao CMTC Clube.
Saudade da Dona Léia, do Externato, que tinha uma cantina de lanches para os estudantes, vendendo salsicha no pão com molho, e só pão com molho para quem não tinha dinheiro para o "hot dog" completo.
Hoje, quando o trem do metropolitano "sobrevoa" esses bairros, mesmo vendo sua degradação urbana, sinto certo encantamento e nostalgia, o que me coloca a pensar que o tempo passa, mas nossas boas lembranças sempre ficam e não se apagam.
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