Eu nasci na divisa dos bairros Brás e Cambuci, quatro anos depois minha família mudou-se para os lados de Santo Amaro, Ponto Floriano, Brooklin, Alto da Boa Vista… Em 1949 mudamos para a Vila Munhoz… Era só barro quando chovia e só poeira quando fazia sol. Ficamos por uns dias na casa do meu cunhado que já morava na Estrada da Conceição e depois fomos para um barraco construído com madeira velha no terreno da Vila Munhoz… Rua 10, atual Astrapéia. O único meio de transporte era um ônibus que saía da Praça da Alegria com ponto final na Rua Catumbi.
Nosso divertimento principal era pescar nas lagoas que existiam em abundância no bairro da Vila Guilherme. Pescar de varas. Peixes muito pouco. Pouco até o dia em que apareceu um senhor e nos pediu, ao meu irmão e a mim, que o ajudássemos a pescar de barco e tarrafa. Claro que topamos na hora. A função do meu irmão era remar e a mim cabia ficar com um bambu enorme na parte de trás do barco ajudando a fazer força, isso quando o bambu alcançava o fundo da lagoa. Ao dono do barco, lógico, restava a função de arremessar a tarrafa na água, o que, ao meu ver, ele fazia muito bem, pois a dita cuja da tarrafa vinha cheia de peixes enormes.
Como naqueles tempos eu já contava minhas mentiras, nós escondíamos da nossa pobre mãe o fato menos importante de que a pescaria era realizada com tarrafa e não com uma simples vara… Afinal, ela não iria entender, e olhem que trazíamos para casa somente a metade dos peixes capturados, pois os outros 50% ficavam com o dono do barco. Muito justo.
Mas como tudo que é bom dura pouco, a nossa festa acabou no dia em que o proprietário da embarcação fez amizade com outros dois garotos que cobravam apenas 40% do produto aferido. Vejam vocês que concorrência desleal. Mas o difícil foi explicar para minha mãe a diminuição dos peixes. Ao que meu irmão foi logo arrumando um motivo: é a poluição, mãe, pros peixes fica difícil dar cria.
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