Pobre Jacinto

A rua da Assembléia era um antro de marginais que não existia igual. O malandro saia da prisão sem eira nem beira e ia parar neste lugar onde a única coisa a fazer era lavar carros – que ficavam nos dois lados da rua -, vender maconha, bater uma bolinha e papear com prostitutas que esperavam a noite chegar para seguir até a praça João Mendes onde faziam o "trottoir." Nossa casa de madeira ficava dentro de um grande estacionamento, sem dúvida, o maior do centro e era protegida por muros bem altos.
Por ser bem próxima ao centro, nossa casa era sempre procurada por camelôs que queriam guardar muambas que eles vendiam nas redondezas. Tínhamos um grande galpão com bastante espaço. Dona Virginia, que era uma santa, ajudava estas pessoas. Jacinto, uma dessas pessoas, morador em São Miguel Paulista, homem trabalhador, honesto, pai de doze filhos, vendedor de churrasquinhos na praça João Mendes.
Certa noite, ele chegou com o seu DKW carregado de latas de vinte litros cheias de espetinhos. Descarregou algumas latas em casa para serem guardadas, e algumas ficaram no carro que ele levaria para iniciar o trabalho da noite. Como ainda era cedo, começamos a conversar sobre a bomba que explodira nas oficinas do jornal Estadão e sobre a situação política geral. O Jacinto, apesar de não ter estudos, tinha sede de conhecimento e tudo a ele lhe interessava.
Lá estavam ele, eu, meu tio João, meu primo Jonas, e um empregado do meu tio Ribeiro num círculo. De repente, sem que ninguém esperasse, apareceu um desses lavadores de carros, todo drogado e disse que iria matar alguém naquela noite. Imediatamente, sacou uma enorme faca que trazia escondida e avançou no meio do circulo onde estávamos.
O pobre Jacinto foi a vítima. Corri para dentro de casa com o meu primo, trouxemos um litro de álcool e uma toalha para tentar estancar o sangue enquanto meu tio chamava a ambulância. Jacinto foi levado ao hospital e, devido aos ferimentos recebidos, depois de duas semanas veio a falecer deixando todos nós enlutados.
E o criminoso? Simplesmente fugiu …