Um piquenique no Zoológico? Que maravilha. Meu tio João nos levaria de caminhonete, que era coberta por um toldo e possuia bancos na lateral. Espaço suficiente para seus filhos, meus primos Daniel, Raquel, Izabel e Mabel (sim, todos com nomes terminando em “el”) e para mim. Combinamos para o fim de semana seguinte e acho que nunca um piquenique foi mais esperado nem preparado.
Minhas primas e a tia Maria cozinharam a semana toda para nos fornecer uma cesta abarrotada de iguarias. Lá da Mooca telefonavam para nós: – Olha, fizemos pastéis de forno. Uma delícia! E minha mãe, não querendo ficar atrás: – A Lygia e eu estamos pensando em fazer umas tortinhas de queijo. E minha tia, lá da rua Jurupuxita (ou será Jupuruxita?) dizia: – Vamos levar salada de batata e bolo de chocolate.
E eu só de pensar já estava com água na boca. Contava os dias. Como para toda criança de doze anos, um passeio ao Zoo com meus primos e muita comida na cesta era o auge da felicidade. Sexta-feira e tudo pronto. Sacolas com pratos de papel, garrafas de Crush e Grapete, a comida na Kelvinator. Ganhei até uma roupa nova para o grande evento, um conjunto amarelinho. Fui dormir cedo para o sábado chegar mais depressa.
Lá para as quatro da manhã acordamos com uma tremenda tempestade! Levantei, fui até a janela. Lá fora um vendaval açoitando árvores, a noite cortada por raios que deixavam tudo branco por alguns segundos. Minha mãe, de penhoar vem até a janela também, dizendo: – Amanhã, já passou tudo. Foi uma das poucas vezes que ela errou a previsão do tempo.
O sábado amanheceu cinzento, um chuvisqueiro fino. Destas chuvinhas que a gente sabe que veio para ficar.Vamos ou não vamos? Minhas primas no telefone: – Vamos, vamos, vai parar! Minha tia ao telefone:
– Não vai ter como segurar estas crianças se a gente não for. Eu, de shorts amarelo, blusinha de verão, morrendo de frio, pedindo: – Vamos, mãe, vamos, mãe, ah, vamos, mãe….
Fomos. Empilhados na caminhonete, meio sentados nas cestas de comida, o vento e a chuva entrando por todos os lados, lá fomos nós, rumo ao Zoológico de São Paulo. Íamos cantando aos berros, como fazem todas as crianças de todas as gerações quando juntas, indo para um dia feliz. Tio João e tia Maria iam á frente, minha mãe conosco atrás, para impedir que alguém caísse da caminhonete pela abertura no toldo e também para impedir que comêssemos tudo antes da hora.
E chovia! Como chovia! O chuvisqueiro da manhã se tornara num dilúvio. Não se via nada a não ser água caindo e a cor molhada de um guarda-chuva de vez em quando, colocando um ponto de cor como aquarela numa tela cinzenta. Finalmente chegamos ao Zoo. Que desolação! Parecia que éramos a única familia a desafiar os elementos. Tio João apareceu embaixo de um guarda-chuva ao lado da caminhonete e disse: –
Vamos esperar parar um pouco, o homem lá falou que os animais estão todos nas tocas.
Esperamos… Esperamos. E chovia! A chuva nem dava um sinal de querer ir embora. Mãe! Tô com fome! gritavamos lá de tráz. Comemos o piquenique ali mesmo. Era um passa passa de bolinhos, tortinhas, salgadinhos, refrigerantes e sanduiches. Os tios vieram sentar atrás conosco e ali mesmo comemos os quitutes tão cuidadosamente preparados para serem comidos dentro do Zoo, num dia de sol, correndo na grama.
Lá para as três da tarde, desistimos de ir ao Zoo. Tudo o que fizemos foi ficar ali na porta do parque, tremendo de frio dentro da caminhonete aberta na parte de trás, olhando por entre a água que caía a entrada do Zoológico. Não vimos um animal. Voltamos ainda cantando, de estômago distendido, roxos de frio. Fiz muitos outros passeios ao Zoo, porém este foi o que mais me marcou. Justamente o passeio que não houve. Por que será?
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