Personagens

Dando continuidade às minhas lembranças do bairro do Cangaíba, hoje trago alguns personagens daquela época, que faziam parte daquele cenário pitoresco.

"Seu" Manoel – O leiteiro

Hoje, fala-se em pasteurização, refrigeração, condicionamento adequado dos alimentos. Sabem como era vendido o leite? Em garrafas de vidro (sabe-se lá se eram bem lavadas ou não!), sacolejando numa carroça, debaixo de sol ou chuva, tampadas com tampa plástica que iam e voltavam junto com a garrafa. Não vinham de nenhuma indústria, as garrafas não tinham marca e nem se sabe se as vacas que produziam aquele leite tinham alguma "marca" – se eram de raça, pura ou não. Até hoje não tive nenhuma seqüela por beber daquele leite…

"Seu Julio" – O peixeiro

Aqui só muda o produto, mas a forma de venda era a mesma: o pescado era vendido dentro de uma carroça, coberto por uma lona plástica azul (apenas para evitar moscas), às vezes furada. Pesava-se o produto numa balança (de ferro), igual à da estátua de Minerva, aonde, de um lado, ia o peixe e, de outro, pesos com várias medidas (1 kg, 2 kg, 1/2 kg). A balança, que originalmente devia ser dourada, apresentava as ações do tempo com sinais de corrosão (pura ferrugem!). Para evitar o contato do peixe com o metal já gasto, o peixeiro forrava a balança com jornal, colocava o peixe em cima do jornal, pesava e estava vendido o produto. De onde vinha o peixe? Nem Deus sabe…

Quem sabia o que era estafilococos, coliformes fecais, contaminação por mercúrio? Todos da família vão bem, obrigada! Este ano, meu pai completa 87 e minha mãe, 79, sadios!

"Seu Zé" – Verdureiro

Apenas mais um produto. Vendido em cima de um carrinho de pedreiro. Ao que se sabe, as verduras vinham de chácaras espalhadas ao longo do rio Tietê. Traziam até um brinde: você encontrava muito daqueles caramujos de jardim em alguma folha. Minha mãe tirava o bichinho, lavava embaixo de água corrente e pronto, estava tudo certo!

Faltou dizer que meu pai usava BHC para matar as formigas do jardim, Neocid era espalhado nos colchões para acabar com as pulgas, naftalina era remédio para baratas e traças e havia o FLITZ para pernilongos e mosquitos.

Posso dizer para aqueles que, junto comigo, chegaram aos 50 ou já passaram desta década: somos todos sobreviventes!

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