Quando morávamos na Vila Mariana, em São Paulo, costumávamos fazer caminhadas no Parque da Aclimação, diariamente, antes de levarmos as crianças ao colégio e irmos trabalhar.
Quando nos mudamos para o litoral, caminhávamos diariamente nove quilômetros pela praia.
Agora em Ribeirão Preto, sempre que possível fazemos nossa caminhada no Parque Curupira. É um lindo parque, com cascatas artificiais que são ligadas bem cedinho e que dão um charme todo especial ao local. Há também vários lagos, todos muito bem projetados.
Procuramos chegar cedo, pois o calor aqui é terrível! Desde o início, algo nos chamou a atenção: não importa o horário em que a gente chegue ao parque, "ele" sempre está lá! Pode estar muito frio ou muito calor, não importa! Pode estar garoando, mas sua presença é constante e certa.
O que é incrível é ver o caminho que ele percorre até a pista de caminhada do nível da rua: ele sobe vários degraus de escada, degraus íngremes e altos! Teria outros caminhos, mas ele só usa esse. Não sei se é porque seu filho estaciona a pick-up bem próxima à escada…
É um senhorzinho que já deve ter passado da casa dos noventa anos há muito tempo! É bem alto, curvado, bem magrinho e com seu infalível bonezinho à la Golias (meio de lado). Geralmente está com a barba por fazer e quando o imagino fazendo-a até me arrepio! Penso em como deve ser difícil para ele tal façanha!
Anda apoiado em uma bengala, o que lhe permite dar seus passinhos compassados em várias voltas pela pista arborizada e cheia de lagos com peixes e aves, inclusive garça cortando os ares do parque. Enquanto damos várias voltas, em passos largos, ele segue o seu ritmo de sempre, alheio a quem quer que passe por ele. Todos que passam por ele o cumprimentam, chamando-o de "Nono". Ninguém sabe o seu nome.
Certo dia, eu o observei tentando proteger seus olhos do sol com a mão em concha. Fiquei com muita pena e pedi para o Igor dar para ele um dos seus óculos de segurança, pois era escuro e resistente. Nos dias seguintes ele não apareceu. Ficamos preocupados achando que algo deveria ter-lhe acontecido. Cheguei até a comentar com o Igor que ele poderia ter morrido dormindo, considerando sua idade avançada ou que estivesse de cama.
Mesmo assim, deixamos o óculos no porta luvas. Um dia, ao chegarmos, avistei-o e pedi para o Igor ir buscar o óculos no carro. Ao alcançá-lo, expliquei que era para seu conforto, para que ele pudesse andar sem o sol incomodando. Ele agradeceu e disse que tinha óculos, mas não se lembrava de usá-lo. Aproveitei e fiquei conversando um bom tempo e me surpreendi com sua lucidez e bom humor!
Contou sobre o bairro em que vivia com o filho mais velho – que todos os dias o leva ao parque em sua Mitsubishi L200. Disse quantos filhos e netos tem, que é separado da esposa e outras coisas que julgou interessantes e pertinentes comentar. Não fiz perguntas, só o deixei livre para falar, sobre o que quisesse e se quisesse.
O Igor chegou com os óculos e ajudou-o a colocar e nos despedimos.
Continuamos a vê-lo, mas nunca com a proteção dos óculos escuros! Continua usando sua mão para se proteger do sol.
O que sempre comentamos é como alguém, com a sua idade, consegue ser persistente em fazer sua caminhada, no seu tempo, mas com uma constância que nós não temos. Quantas pessoas de sua idade ou muito mais novos não têm essa determinação. Talvez seja por isso que ele ainda está entre nós, dando-nos uma bela lição todos os dias!