Paulistarum Terra Mater – 455 anos

(A Terra Mãe dos Paulistas)

Homenagem a São Paulo

"Va' pensiero, sull'alli dorate,
Va', ti posa sui clivi, sui colli,
Ove olezzano tepide e molli
L'aure dolci del suolo natal!" (Ópera Nabucco, de Verdi)

Homenagear São Paulo é também homenagear meus avós. Não fossem eles a se jogarem de alma e coração na grande aventura de atravessar um oceano, não fosse a escolha deles, quanto ao país, e, não fossem suas esperança, tenacidade, coragem, eu não teria a honra e o privilégio de, com muito orgulho, dizer: sou Paulista e Paulistano!

Uma Itália empobrecida, mal administrada; a grande fome, desemprego, contribuiu para o êxodo do fim do século XIX até meados do século XX. Nesse êxodo, vindos da pequena Limbade (Calábria), das cidades milenares de Roccamonfina e Nápoles mesmo, estavam os meus antepassados, e entre eles, Antonio, meu avô – um contador desempregado que adorava ópera, poesia, livros, e que fazia anotações em pequenos diários de viagem. Foi dele que eu herdei a "mania". Anotar lembranças e memórias.

Em Nápoles a família dividiu-se: parte optou pela América e embarcou para New York, outra parte veio no mesmo navio que os meus avós e seguiram viagem para a Argentina. Quanto ao vovô, seu destino estava selado, desembarcaria em Santos. Sempre que perguntávamos por que escolhera o Brasil, ele resumia tudo em uma única palavra: sentimento (hoje, eu diria premonição. Vovô sempre foi muito feliz aqui – palavras dele, não minhas).

E a família partiu para viver a grande aventura. A terra que lhes serviu de berço não mais lhes serviria de sepultura. Saudades antecipadas, dor, incerteza e a esperança de dias melhores.

Ainda no porto de Nápoles, vovô fez a primeira anotação em seu diário: "Dói este sentimento que me queima a alma. Olho os meus braços e sinto que esta terra corre misturada ao sangue de minhas veias. Ao mesmo tempo olho os meus braços, tão bons na lavoura como no "bureau", e temo ter de usá-los apenas para estender a mão e pedir uma esmola. Melhor partir…"; "… Meus olhos estão vermelhos, retendo as lágrimas. Digo que é por causa do ar marinho, ou um cisco…".

O Vapor parte. Desaparecem da visão a baía de Nápoles, o Vesúvio, a Ilha de Capri… Vapor que vai devorando o Mediterrâneo, rumo a Gibraltar. Meu avô escreveu em seu diário: “… Nem mesmo a pior das mortes se compara à amargura desta partida…"; "… Prima Antonietta passa o tempo todo chorando, olhando para a medalhinha da Addoloratta a qual, no reverso, a tia mandou gravar 'Recorda Sempre'. Pobre tia minha, tão fraca e consumida pela tuberculose… Nunca mais nos verá, nunca mais a veremos. Não nesta vida…"; "… Saudades! Machuca tanto que finalmente chorei como uma criança…".

Enfim o Atlântico! Emoção e incertezas misturadas à esperança. "Cosa sarà là, 'sta 'merica?…". E a tal "merica" dá as boas-vindas a minha família ali no porto de Santos. Nasce mais uma família paulista!

E a vida flui como um rio velho, sem corredeiras ou obstáculos: o trem, São Paulo, a hospedaria, novamente o trem, e a fazenda de café. Na fazenda, depois de algum tempo, vovô e vovó deixam de ser lavradores – ele volta a ser um contador na administração da fazenda, ela volta a lecionar, ensinando as primeiras letras aos filhos de imigrantes.

E a vida foi melhorando. Os filhos italianos, já adultos e adolescentes; os filhos brasileiros – vindos "um atrás do outro" – crescendo; um pé-de-meia razoável e chegara o momento de partir para São Paulo – terra das oportunidades, onde os filhos aprenderiam uma profissão e teriam mais chances nos estudos.

A longa viagem de trem, a estação da Luz, a cidade… E o bairro – a Mooca! E, para espanto deles, na Mooca, "Tutta Napule i'mmieza'via!" (Toda Nápoles no meio da rua!). Nasce uma família Paulistana! Pois São Paulo foi, é, e será feita desse amálgama de todas as raças e nacionalidades…

Na Mooca, em 1937, vovô anotou em seu caderno: "… Perdi o controle. Fui grosseiro. Adelina (minha avó) e as amigas falavam o quanto a Itália era e é melhor. Como podem dizer isso? Amo a minha pátria, onde estão as minhas raízes. Mas amo mais esta terra que curou a doença da minha mãe e irmãos; que me dá o pão que ponho em minha mesa – matou a nossa fome…"; "… Olho meus filhos, todos fortes e saudáveis, e vejo neles o futuro. Não como lá, onde olhar para os filhos nos levava a pensar por quanto tempo mais eles viveriam…"; "…Minhas raízes estão lá, mas eu beijo o chão dessa terra que me acolheu e me mantém vivo…"; "…Vejo meus netos que, graças a Deus, não perdi nenhum, rindo e brincando a minha volta…"; "…Sei que os tempos são difíceis. Mas sei que, se está ruim aqui, pior está por lá. Recebemos as cartas dos parentes e Adelina, ao lê-las, não percebe a situação…" (Vovô antevia os acontecimentos que, começados em 1939, devastaria a Europa e a Itália.).

Vovô sempre foi muito prolixo quanto ao seu amor pelo Brasil e por São Paulo. Sorrio ao lembrar do vovô me dizendo: "Sei Callabrese per le tua radici. Ma sempre um Paulista Brasiliano!" (Você é um Calabrês, pelas raízes. Mas, sempre um Paulista Brasileiro!).

E, um dia, em uma maternidade da Mooca, nasceu este Calabrês-Paulista-Brasileiro que, por dom de Deus, recebeu o título de Paulistano.

E eu, o Paulistano "carcamano", vinguei. A vida seguiu em frente, e eu fui descobrindo esta cidade. Deslumbrei-me com a São Paulo dos anos 50; amei a São Paulo dos anos 60; apaixonei-me pela São Paulo dos anos 70 e, com todo o meu amor e paixão, rendi-me a São Paulo dos anos 80 e 90. O século XXI nos vê, eu e a cidade, como um casal de amantes, cujos muitos anos de convivência e conivência os tornaram serenos e previsíveis. Serenos e previsíveis, mas sempre em movimento, buscando novidades, experiências novas, novos rumos. Um casal que envelhece pela idade, mas com um espírito que se renova minuto a minuto.

E a Parcas continuam tecendo o meu destino. Vou em frente. E quando Cloto deixar a roca de lado, Láquesis terminar de fiar, e Átropos cortar o fio da minha vida, que me enterrem, cremem, não importa. Meu espírito é livre. Com certeza vou ficar vagando por essa cidade. Serei mais um fantasma a vagar pelas ruas e praças. E irei até a Sé, não a Praça, mas o Largo. Vou lá encontrar velhos fantasmas ancestrais. Juntos, caminharemos pela Rua da Imperatriz, ou a Rua Nova de São José, ou então faremos um breve descanso ali, no Largo da Misericórdia, onde outros fantasmas contarão histórias das Ruas do Jogo da Bola, Rua da Freira, Rua da Cruz Preta…

Quem sabe alguém me conta, lá no Largo do Theatro, coisas lascivas e ardentes a respeito das atrizes que atuavam no Theatro São José… Talvez me falem de Eugênia, o grande amor de Castro Alves… Ou contem coisas escabrosas sobre o que acontecia em certas casinhas da Travessa Esperança – que ficava bem ali, na frente da atual Catedral… Ah! Que me falem de Sarah Bernhardt! Que me narrem histórias ao cansaço. Que me levem ao Largo de São Francisco, mas, por favor, que seja pela Rua do Imperador, entrando à esquerda na Rua Direita e, antes da Misericórdia, entremos na Rua do Ouvidor e, talvez, ao chegarmos à esquina da Rua de São Bento, vejamos o Cruzeiro, sem um dos braços, ou então, a estátua de José Bonifácio – o moço, em frente ao templo dos Franciscanos.

E em frente ao prédio da Faculdade, prédio velho, não o novo, que me falem de estudantes e estudantadas; ou falem do Fagundes Varela, da sua triste história de amor; das suas idas e vindas, à noite, ao Cemitério Público, onde diante do túmulo do filho recitava "O Canto do Calvário"; que me falem do Júlio Frank, que está sepultado no pátio interno da Academia, pois a irracionalidade dos clérigos lhe negou uma sepultura por ser ele Protestante… E vou querer voltar à Rua da Imperatriz. Vou descê-la até a Igreja do Rosário. E os fantasmas que circulam por lá contarão todas as histórias insólitas daquele lugar.

E, claro que vou querer voltar ao Largo da Sé e, em disparada, seguirei ao lado da Igreja de São Pedro, até o Largo do Palácio. Entrarei à direita, na Rua do Carmo, seguirei em frente até o Largo do Carmo e dobrarei à esquerda, na ladeira do Paredão que desce para o Braz. Paro sobre a Ponte do Carmo e fico olhando as lavadeiras a lavar roupas nas águas do rio. Entretidas na sua labuta, expõem seus braços nus, carnudos, roliços e, vez ou outra, um tornozelo, uma canela, enlouquecendo de desejo antigos fantasmas de paulistas que ficam por lá, a olhá-las…

Está resolvido! Vou ser um fantasma!

Se a tal luz aparecer, vou fingir que não a vi. E se um anjo disser: Venha para a Luz, e insistir, vou levantar o dedo num gesto obsceno e vou dizer no patuá da Mooca: "Pode mi tirá us cavalo da chuva qui num mi vô mesmo!". Se ele insistir mais, eu ataco: "Já dissi qui num mi vô, cazzo! Purque inveiz di ficá m'inchendo os pacová, vuce num mi vai peidá na água pra fazê bolinha?…".

E até que a Luz resolva, por bem ou por mal, levar-me, continuarei a assombrar esta cidade com a mesma emoção, amor e ternura com que ela sempre me assombrou. E se a Luz me levar de vez, irei sob protesto, cantando com voz roufenha e desafinada, os versos do Nabucco de Verdi:

"Vai, pensamento, sobre asas douradas,
Vai e pousa sobre as encostas e colinas, Onde se perfumam mornas e macias, "As doces brisas da terra natal…"

Obrigado São Paulo! Obrigado vovô!

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