Em 1950, nos meus doze anos, morávamos na Rua Borges Lagoa, na Vila Clementino. Como o terreno da nossa casa era grande, os meus avós (fui criado por eles) o sublocaram para uma empresa construtora que aí guardavam materiais que usavam em suas obras.
Num determinado dia, vencimento do aluguel, minha avó me deu o valor correspondente à passagem de bonde da Vila Clementino até a Praça João Mendes e pediu que fosse até o escritório da construtora receber o aluguel.
Esse escritório localizava-se na esquina da Avenida Ipiranga com a Rua da Consolação. Da Praça João Mendes até lá era fácil chegar andando, era pegar a Rua Quintino Bocaiuva até a Rua Direita, até a Praça do Patriarca, pegar o Viaduto do Chá, até a Praça Ramos de Azevedo, ir pela Rua 24 de maio até a Avenida Ipiranga, pronto já quase chegamos. Basta ir em direção da Avenida São Luiz, ultrapassá-la… estava chegando, ainda bem!
O expediente em todos os locais de trabalho já estava por terminar, mas eu cheguei antes. Qual não foi a minha decepção ao ser informado que o responsável pelos pagamentos já havia saído. Não me desesperei, embora não tivesse dinheiro para voltar para casa, pois a minha tia Esther trabalhava na Rua da Consolação, era só ir até lá e ir embora com ela. Eu não imaginava como a distância entre as Avenidas Ipiranga e Paulista era grande.
Quando lá cheguei, a Esther já havia ido embora. Restava-me só uma saída, foi a que tomei: ir andando. Fui pela Avenida Paulista até a Praça Oswaldo Cruz no Paraíso, pela Domingos de Moraes fui até a José Antonio Coelho, desci até a Humberto Primo até a Rodrigues Alves até a (hoje) Avenida Ibirapuera até a nossa casa.
Foram duas horas e quarenta minutos de caminhada. São Paulo é muito grande para quem não tem dinheiro.
Hoje, como eu gostaria de fazer isso de novo, pois fiquei paraplégico e nem sequer fico em pé, mas tenho vocês para me ler e uma esposa e família maravilhosa!
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