Páscoa – um ritual

Naquele tempo as pessoas religiosas levavam muito a sério e meu avô fazia jejum, não aparava a barba, aliás, tinha um aparelho perigoso para fazer esse trabalho, rezava-se muito até a Sexta-feira da Paixão. Eu era criança e não entendia quase nada: ficava-se de luto por algo que sequer conhecíamos. Eu era muito observadora e via meu avô compenetrado e prostrado em suas orações e em seu jejum.

A semana que antecedia a Páscoa era assim e não me lembro se meu avô tomava banho e limpava a casa. Não lembro disso, mas sei que era um luto profundo.

As procissões eram o ponto alto dessa comemoração, além, é claro, da malhação de Judas e dos ovos de páscoa no domingo.

A procissão era muito concorrida, afinal era a reconstituição de um fato acontecido há dois mil anos atrás, mas se tornava realista naqueles dias e o bairro todo comparecia. Jesus morto (eu tinha medo), Verônica cantando, Maria chorando e as pessoas compenetradas, as mulheres com véus na cabeça, levavam nas mãos as velas envoltas em papel de seda, e nós, crianças ficávamos torcendo para as velas pegarem fogo nos papeis e aí acabava a seriedade e caíamos na risada vendo o povo espantando o fogo das mãos. O nosso vizinho e amigo, Senhor Lucas puxava a reza e todos acompanhavam com clara devoção.

No sábado era a Malhação e dá-lhe procurar terno velho, sapato furado, camisa em fiapos para vestir o "malvado" preso nos postes aguardando a malhação, e as crianças aflitas para o início daquele ritual. E dá-lhe "porrada", chutes e pontapés. Era a glória!

No domingo, meu pai já de véspera colocava cenouras pela casa, assim como as pegadas no talco e no domingo nós corríamos em direção das pegadas para descobrirmos os ovos, grandes, robustos e deliciosos.

O almoço também era regado a nhoques, lasanhas, carne assada ou o que mais tivesse.

Era assim, mas hoje o povo viaja, não tem mais a malhação, não tem o Senhor Lucas rezando nem papéis pegando fogo, mas ficaram as lembranças.

Feliz Páscoa a todos!

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