Como é bonita e tradicional a Páscoa polonesa. A Polônia e toda aquela região européia fazem uma festa religiosa sem igual, que os imigrantes a mantém até os dias de hoje no Brasil, através deles e dos descendentes aqui nascidos. Eles vieram principalmente após a Segunda Grande Guerra, e muitos rumaram para São Paulo e demais Estados do Sul. Esses estrangeiros conservam a tradição até hoje.
Aqui, em São Paulo, meus pais vieram morar no Brooklin, que vem depois da Vila das Belezas, após Rio Pinheiros; na época, era um bairro longínquo. Os demais colegas de viagem da Europa vieram morar em diversos bairros como Jaguaré, Chácara Santo Antonio e Vila Alpina e também nas cidades de Osasco e São Caetano do Sul.
O maior encontro desses imigrantes é aos Domingos de Páscoa, na Igreja Nossa Senhora Auxiliadora e em seu anexo, que têm a padroeira da Polônia, a Santa N. Sra. Czestochowa. Esta igreja fica localizada no bairro do Bom Retiro, na Rua Três Rios. Considero, inclusive, como uma das mais belas de São Paulo. Creio que esta igreja é o maior ponto de convergência católico-polonesa em São Paulo.
Eu, ainda criança, ia com meus pais a essa igreja desde sua construção, da década de 1950, até aproximadamente 1963. Em todos os dias de Páscoa, as pessoas se encontravam com muita alegria e muitos abraços! O falatório era demais e eu ficava ali perdido, não entendia nada, pois eles só falavam em polonês e eu, como moleque de um bairro afastado, não tinha com quem apreender e conversar. Meus pais trabalhavam diariamente e não podiam me ensinar, e já até estavam esquecendo a língua pátria.
A igreja ficava lotada e a cada ano aumentava o número de frequentadores. Por certo, devido aos filhos que iam nascendo e acompanhavam os pais.
Eu assistia a missa e não entendia nada, seguia o ritual olhando os mais velhos e os imitava. Eu gostava muito dos cântico, com corais maravilhosos; era de arrepiar! Após a missa haviam tantos comprimentos de despedida! Íamos embora a pé até o vale do Anhangabaú para tomar o ônibus até Santo Amaro.
No trajeto de volta, lembro que passávamos pelo Jardim da Luz, que já era muito bonito naquela época – creio que ainda é mais bonito, sem as grades de hoje; parávamos à sombra das arvores, com alguns “lambe lambes”, que tiravam fotos. Um detalhe que não esqueço: a maioria dos homens usava chapéu. Tenho, inclusive, algumas fotos de nossa família no jardim, na qual pode-se observar todos os homens de chapéu e as mulheres de longo.
Depois de 1963, voltei a essa igreja para um casamento de um amigo em 1978. Posteriormente, em 1979m para retirar meu batistério para me casar O padre que me atendeu nesta data era meu xará, Estanislau, já falecido. A última vez que estive lá foi o ano passado, 2010, na Páscoa, a convite de um senhor filho de polonês, Lublanski, que me convidou para a missa. Ele me conheceu assim como muitos outros poloneses com uma história que escrevi no SPMC, com o titulo "A saga de um polonês da Polônia até São Paulo"; portanto resolvi ir com minha esposa e filha.
Confesso que fui lá com muita expectativa e emoção, pois há quase meio século não assistia uma missa de Páscoa ali. Nesse domingo de Páscoa de 2010, amanheceu chovendo e quando lá chegamos bateu uma saudade grande, mas vi pouca gente no pátio e a igreja estaca cercada de grades. Admirei a catedral por fora, a sua grandiosidade, suas torres e entrei; sentei-me naqueles bancos maciços de madeira brilhante e visualizei a bela igreja em 360º e o monumental altar. Vi os Santos pintados nas paredes e nas cúpulas, assim como as estátuas nas colunas. Parecia que eles me olhavam me repreendendo pela minha ausência durante tanto tempo! Achava que tudo conspirava contra mim, pois até a chuva caia naquele momento; era como lágrimas de todo um passado dos que se foram caindo sobre a minha cabeça; como os dos precursores de uma época não tão distantes como das famílias, Witas, Rybczynski, Rygeta, Iwanski Micholaviski, Kurtzenbaum, janiak, Odorczick, sikorski, Kiss, Kalina, Jasinskie e outros inskis, wicz, czik… Era realmente um sentimento de culpa que me dominava, apesar que sou um cristão católico apostólico romano, frequentador de missas da capela de meu bairro.
Fiquei um tanto decepcionado com o que vi dentro da igreja: o grupo de fiéis não chegava a preencher a metade dos acentos. A maioria era de pessoas idosas e algumas crianças que eram, com certeza, netos de poloneses. Refleti e me senti novamente culpado por quebrar essa tradição polonesa religiosa. Meus pais, que já falecidos, também deixaram de frequentar a essa paróquia, pois a labuta diária e pesada e os costumes da nova terra foram afastando-os dos patrícios.
Durante a missa, distribuíram livretos em polonês e português para o acompanhamento da missa. Eu peguei o em português, pois de polonês não sei praticamente nada, muito menos meus filhos e esposa que é descendente de italianos. A missa transcorria na sua maior parte em polonês, só algumas passagens em português, apesar de notar que a maioria dos frequentadores estavam com o livreto em português.
Após a missa, fomos convidados a participar de um desjejum tipicamente polonês num salão ao lado, colado ao Instituto Dom Bosco. Lá matei as saudades da infância com todos aqueles pratos típicos feito pelas “mamas”; com muitas saudades recordei da minha mãe, personificada naquelas senhoras que estavam ali: gordinhas de rosto rosados e com uma simpatia celestial servindo a todos.
Em minha infância, antes de irmos para a igreja com meus pais, lembro que logo de manhã tomávamos nosso café, que era servido com muita comida típica da Polônia, como os ovos pintados. Aos sábados, minha mãe cozinhava os ovos com papéis coloridos de seda, que eu usava para fazer quadrados (pipas); usava-se também casca de cebola, pois deixava os ovos na cor dela e colocava numa salva de louça. A mesa era decorada com uma toalha com motivos da Páscoa, juntamente com os ovos, o café com leite, paio, bolo e os ovos de chocolate para completar o farto café.
Vale informar que os ovos pintados de uma só cor são denominados "Malowanki"
(pintados); quando na superfície colorida são feitos desenhos, são denominados "Srobanki" (raspados) ou "Rysowanki" (desenhos); os que possuem uma ornamentação feita com o auxílio de cera, especialmente preparada, chamam-se "Pisanki" (generalizados todos como pisanki). São tão bonitos que dá pena de quebrá-los para comer!
Minha mãe, Agmenska, fazia um bolo normal polonês e uma rosca tipo babka, semelhante ao bolo vendido em super mercado, chamado colomba pascal. Creio que a idéia foi copiada dai.
Quando chegávamos em casa, o almoço já estava pronto, feito, na sua maioria, no sábado de aleluia. Era uma comida típica polonesa com alguns toques brasileiros. Eram servidos um assado de frango e de boi, com batatas assadas e coradas, um pouco pierog (pastel polonês), sem esquecer de uma garrafa de vodka. Já a noite, era servida uma leve sopa de caldo de beterraba, barszcz, com purê de batata.
Muitos poloneses tinham o hábito de levar esses alimentos na igreja mais próxima para benzer-los, logo no domingo de manhã e o padre sempre ganhava alguma coisa.
Os poloneses cantavam uma música tradicional, uma espécie de hino nacional ou grito de "guerra"; como um “vira-vira” brasileiro ou uma “tarantela” italiana. Era muito comum e alegrava as reuniões!
Faz parte da tradição polonesa dividir com os próximos o ovo cozido pintado. O sal usado era bento pelo sacerdote e um elemento inseparável das trocas de votos feitos por ocasião das festas.
Por fim, como o costume de muitos no Domingo de Páscoa, dividir com os mais próximos um ovo cozido pintado desejando "Wesolego Alleluia"!
Feliz Páscoa a todos; feliz passagem; feliz ressurreição de Jesus Cristo!
Que continuemos a passagem para o lado bom, que é Deus.
Bog z nami – Deus esteja conosco.
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