Os grandes mestres do Firmino de Proença

Das recordações mais gratas de outrora, as mais marcantes, sem dúvida, nos remetem aos bons tempos de escola. Do tempo em que cursar uma escola pública era uma regalia do qual nos orgulhávamos, pois o ingresso nos melhores colégios públicos passava por um renhido funil, tal qual um vestibular de hoje, que era o exame de admissão. Ninguém chegava a um colégio Estadual São Paulo, ao Colégio Roosevelt, ao Alexandre de Gusmão a um Firmino de Proença e a alguns outros mais, sem passar pela peneira de exames.

Tive o privilégio de ingressar no Ginásio Estadual Antonio Firmino de Proença. O orgulho da Mooca, e por lá desde o início do ginásio nos idos de 1954 até o fim do estudo de grau médio então conhecido por curso científico. Aprazei-me com grandes mestres, professores por vocação e amor, que moldavam os jovens para um mundo melhor; que não só transmitiam o conhecimento, mas poliam a educação da qual, naqueles tempos, a família não abria mão.

A direção do colégio, que inicialmente era conduzida a mão de ferro pela Prof.ª Adelina Marzagão, mais tarde substituída por nada menos que o Prof. Alfredo Gomes igualmente duro, mas que com candura e sapiência conduzia qual uma grande família, uma estirpe única, os alunos do Firmino.

Recebemos o laureio da mais fina flor dos mestres de uma geração e deste distinto grupo, sem menosprezar os outros que não cito, obrigo-me a falar dos que realmente moldaram meu jeito de ser, marcaram minha vida, foram luzes, que sem presunções na sua autenticidade, alumiaram o caminho dos jovens privilegiados que o conheceram.

Mestre dos mestres: Prof. Eduardo Vilhena de Moraes, que em suas sublimes aulas de história, nos conduzia como joguetes do fato mais recente à pré-história, dos fatos mais misteriosos das grandes civilizações ao dia a dia do mundo contemporâneo, com uma leveza e precisão que tornava suas aulas, ou melhor, palestras, sonhos imperdíveis, e que permitiram moldar muitos jovens. Confesso, em particular, que delineou de modo marcante a insaciável sede de conhecer o mundo que balizou o caminho de minha vida.

O prof. Nicolau Carone, que me conduziu pelas maravilhas das linhas, feitiço das formas e magia das cores em suas fantásticas aulas de desenho, ensinando-nos a descobrir no mágico desenho os segredos e representações da hermética matemática. Os jogos das formas, as claves de cores, a beleza única da razão áurea, a composição harmônica Dona Ondina, a baixinha, fala mansa, humilde que destrinchava os números, letras e símbolos, tornando as incógnitas apenas elementos escondidos, que, com faro de detetives, encontrávamos escondidos nas equações. Tornava a com magia a matemática palatável, despertando vocações, para desafios mais surpreendentes.
O Prof. Borges que geriu nossa forma de expressão procurando nos inculcar, na forma correta de redação e no histórico da formação dos vocábulos, orientando no "como entender", perscrutando textos e nos tornando neófitos no desvendar da magia poética da literatura.

O Prof. Otacílio Dias, um corintiano sempre brincalhão, a descrever as maravilhas da geografia do mundo, montanhas, praias, vales, rios e tudo o mais que permite a integração sustentável entre a natureza e o homem de uma forma que nos induzia na vontade de viajar.

O Prof. Wilson Tucci, que produzia a mágica de dar forma aos mistérios da física, aclarando-nos e transformando segredos em formulas matemáticas, quando não o inverso, ou seja, fórmulas matemáticas em explicações dos enigmas, expondo tudo em uma forma palatável bonita sem brenha.

O Prof. Geraldo de Ulhoa Cintra, um latinista, fã ardoroso da civilização greco-romana, mais que um professor de latim, a língua mãe do raciocínio lógico, nos embasava em nossas origens culturais, nas raízes históricas e no surgimento e evolução “da ultima flor do Lácio” como com altanaria se referia a nossa língua portuguesa, e conduzia a devaneios com os seres mitológicos. Eram Diana , Júpiter, Baco, Venus Hercules, Fauno "et coetera" ou seja muitos outros.

Inúmeros outros mestres nos toleraram, e, em sua paciência e sapiência, nos conduziram, estimularam ao despertar de vocações e principalmente deixaram em nossos corações as suas marcas inesquecíveis. Os grandes mestres do Antônio Firmino de Proença.

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