Para uma amiga do Jardim São Paulo

Lembro-me que você me chamava do outro lado da Gaspar, fazendo sinais para que eu descesse até a porta da sua casa, quase em frente a minha, mostrando-me, de longe, algo nas mãos. Descia correndo, chegando a tempo de ver você rasgando o papel do pacote e revelando a capa do último disco dos Beatles: Rubber Soul. Nós dois ficávamos ali fitando, extasiados, a foto da capa dos caras que amávamos e, por um momento, paralisados ante a iminência de ouvir as novas belezas, as músicas que então nos arrebatava.<br><br>Ah amiga querida! Era como se um sonho se tornasse realidade, pois seu sorriso iluminava tudo quando começávamos a ouvir aquelas músicas. E foi assim com o Magical Mistery Tour, Revolver, Beatles Again, Abbey Road, o mítico Álbum Branco, “Let it Be” e tantos outros compactos, simples e duplos, os quais você era a primeira a ter, pois seu pai sempre te dava de presente. Lembro-me o quanto a belíssima canção “Here, There and Everywhere” na voz do Paul, te emocionava e fazia com que lágrimas aflorassem nos seus olhos juvenis.<br><br>Seu perfil, o vento esvoaçando os seus cabelos longos e seu jeito de menina, pois você era menina ainda, mal tinha 14 anos e desde então a amizade que eu sentia por ti não se confundia com amor, mas amizade fraterna e inocente, cultivada na ausência e na distância.<br><br>Muitas vezes ouvi suas mágoas de amor adolescente e sempre procurei confortar-te mesmo sendo, na época, tão jovem quanto você.<br><br>A bela música “Fortíssima” da Rita Pavone, (a Madonna dos anos 60), também muito te emocionava e confesso que sempre que a ouço lembro-me de você.<br><br>Hoje, anunciaram que você morreu e foi como se de repente, aqui, ali, em toda parte, eu procurasse te encontrar ou te ver mesmo que de longe e na sua figura amorosa recuperar minha juventude perdida.<br><br>Pelas ruas do Jardim São Paulo, não importa agora a chuva fria daquelas tardes e as noites com a nossa turminha reunida na porta cantando e ouvindo as canções que amávamos. Por essas ruas, ficam marcadas para sempre as imagens da sua vida.<br><br>Então, como uma homenagem de nossas vidas vividas, o poema abaixo, do insigne poeta português Miguel Torga, apenas mudo-lhe o nome para:<br><br>Ione<br><br>É um adeus…<br>Não vale a pena sofismar a hora!<br>É tarde nos meus olhos e nos teus…<br>Agora,<br>O remédio é partir discretamente,<br>Sem palavras,<br>Sem lágrimas,<br>Sem gestos.<br>De que servem lamentos e protestos<br>Contra o destino?<br>Cego assassino<br>A que nenhum poder<br>Limita a crueldade,<br>Só o pode vencer a humanidade<br>Da nossa lucidez desencantada.<br>Antes da iniquidade<br>Consumada,<br>Um poema de líquido pudor,<br>Um sorriso de amor,<br>E mais nada.<br><br><br>[email protected]