Sou paulistana de coração, não de nacionalidade. Meus pais saíram do sul da Espanha direto para o Bairro do Itaim Bibi, onde meu avô materno morava na Rua Tenente Negrão e tinha um depósito de ferro-velho na Joaquim Floriano. Eram os idos de 1950, quando com dois anos de idade fui trazida para esta terra maravilhosa. De lá para cá, os mais importantes momentos de minha vida e algumas das mais doces lembranças aconteceram no perímetro urbano do Itaim Bibi e da Vila Nova Conceição, onde moro até hoje.
Minha primeira casa foi na Baltazar da Veiga. Era pequena, mas com um grande quintal povoado de pés de laranja, jabuticaba, mamão, fadas, bruxas e uma enorme goiabeira com um balanço de corda, palco de inesquecíveis tombos, risadas e brincadeiras. A 50 metros da casa estava a Avenida Santo Amaro que naquela época era chamada de Estrada Santo Amaro. Ainda de terra batida e onde ficava o Cine Excelsior, com matinês imperdíveis nas tardes de domingo.
Não muito longe, ocupando um quarteirão inteiro, ficava e ainda fica o Grupo Escolar Martim Francisco. Estudei lá. Lembro ainda com saudade de professoras como Dona Jumá e Dona Sinhá, do cheiro do papel dos cadernos novos estocados na biblioteca e daquela linda escadaria (tão imensa para os olhos de uma criança…) que se repartia em dois lances para alcançar o segundo andar do prédio. Essa escada até hoje visita os meus sonhos…
Dentre as ruas, todas sem asfalto, vou sempre lembrar com carinho das idas e vindas pela Rua Quiçaba, Monte Aprazível, Marcos Lopes, Silvânia, Natividade, Afonso Brás, Jacques Felix, Domingos Fernandes, dentre tantas outras. Quase todas as casas tinham jardins na frente com perfumadas roseiras, lírios e margaridas. A Rua Quiçaba, para onde nos mudamos em 1954 e onde morei por muitos anos, dava no córrego Uberabinha, hoje canalizado para atender a modernidade.
Descer a rua para ir olhar suas águas ou ficar pulando sobre a “pontezinha” que balançava sobre o córrego era uma aventura e tanto! Após as aulas, sobrava espaço para as brincadeiras. Era quando a nossa turminha mais chegada (o Luisinho, o Carlinhos, a Arlete, a Maria Lucia, a Cleide e o Nelsinho) se esbaldava na rua, brincando de queimada, boca de forno, pegador ou mãe da rua. Era imperdível e impagável! Só parávamos depois de nossas mães nos chamarem diversas vezes para jantar.
Isso sem falar no homem do quebra-queixo que passava, de vez em quando, vendendo, entre outras, aquela delícia de doce de coco queimado e que, até conseguirmos alguns trocados com nossas mães, já tinha descido a rua, fazendo com que corrêssemos como loucos atrás dele… Quanto às noites, lembro que eram quase sempre estreladas e que, muitas vezes, depois do jantar, nossa turma gostava de ficar no portão ou deitados no registro da água, olhando para o céu e esperando por estrelas cadentes para fazermos pedidos…
E a venda do Seu Antonio então? Para nós, era o paraíso da gula! Ficava na esquina da Monte Aprazível com a Marcos Lopes e sempre que nossas mães nos mandavam comprar alguma coisa, nos debruçávamos sobre o balcão de doces fechados por uma tampa de vidro e o grande dilema da vida se resumia em qual doce escolher!!! Em 1959, o prédio do Martim Francisco, passou a abrigar, temporariamente, o Ginásio Estadual Padre Manoel de Paiva.
Foi lá, que muitos de nossa turma completaram o ginasial com professores carismáticos como o Carlos Eduardo que dava aula de português e latim e pelo qual quase todas as meninas morriam de paixão… A professora Marisa de ciências, a Yvonne e a Lúcia de geografia, a Maria de Lourdes de francês, o Vincent de matemática, e, colegas marcantes como a Marija, a Vera e a Regina, que depois fariam comigo também o Clássico, a Natália, o Kinzinho, a Neide, a Ed, o José Olinto, a Nilcéia…
Aos poucos, as brincadeiras de rua iam cedendo espaço para os bailinhos de quase todo fim de semana e que chamávamos de “bailinhos pró-formatura” ao som de Ray Conniff, Chubby Checker… Quanta emoção! Primeiros flertes, coração disparando, primeiras poesias… Logo viria a vez do Itaim Bibi tatuar nossas vidas com a ida para o Costa Manso! Colégio novo, amigos novos e inesquecíveis emoções! Foi à vez de curtir a João Cachoeira, a Bandeira Paulista, a Joaquim Floriano, a Renato Paes de Barros, a Leopoldo Couto Magalhães…
Que saudade, que maravilha que era tudo aquilo! Que privilégio ter feito parte do Costa Manso por três anos, durante o curso Clássico. Que sorte ter tido professores como o Moreau, a Edith, e um diretor amigo como o Prof. Athos. Que bom ter tido colegas de classe como a Marija, a Vera Cecília, a Flora, a Norma, a Santina, a Glória, a Regina Maria e a Regina Célia, a Flora, o Masagão, o Lóris…
Que saudade, também, do Max, do Chico, do Marco Aurélio e de tantos outros amigos do Científico. Todos juntos fazendo parte do Grêmio e do Coral do Lóris! Novos tempos viriam. Formatura, continuação dos estudos, casamentos, filhos, o exercício da profissão… As casas cedendo lugar a prédios, ruas sendo asfaltadas e os canteiros com roseiras se transformando em paisagismos tropicais, lindos, mas, sem perfume!
Os amigos se perdendo no tempo, as emoções se renovando, mas com sabor diferente! Só uma coisa não mudaria, embora permaneça escondida aos olhos! E, ela surge sempre que o coração aborta em saudade daquele tempo vivido e, por momentos, trás a “nossa criança” de volta, mais viva do que nunca! É quando fechamos os olhos, o coração dispara, e o cenário perdido no tempo se torna completo.
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