Para não comer depois

Olho para cada detalhe. Tudo me chama atenção. Diferente, corrido, gente estranha. Foi com um olhar de quem morou por três décadas na mesma cidade que cheguei a São Paulo.<br><br>Distância entre riqueza e pobreza que parece não ter fim, cheiro de poluição, ruas bem sinalizadas, restaurantes charmosos, movimento que não cessa. Cenário que permeou as minhas primeiras semanas.<br><br>O Pão de Açúcar da esquina foi o primeiro alvo a ser explorado. Lá, fui recebida com um banner, bem na entrada: “O que faz você feliz?”. Fui à sessão de frutas e verduras, pensando na resposta desta pergunta existencial. Fiquei espantada com o que encontrei ali: várias frutas, entre elas laranjas e mexericam descascadas, separadas em gomos, bem embaladas. Imediatamente, pensei em Adélia, no seu poema “Para Comer Depois”, no qual ela diz: "Na minha cidade, nos domingos de tarde, as pessoas se põem na sombra com faca e laranjas. Tomam à fresca e riem do rapaz de bicicleta, a companhia desatada, o aro enfeitado de laranjas."<br><br>A camaradagem interiorana à beira das portas, as reuniões das mulheres com suas vassouras embaixo do braço fingindo que estão varrendo as calçadas, os fuxicos, as mães sentadas na portas das casas vendo as crianças brincarem na rua, tudo tão distante, mais distante que eu poderia imaginar:<br>- “Será que as pessoas acham tão complicado descascar uma fruta, picar uma verdura?” – pensei.<br><br>Saí de lá com essas questões, incomodada, tentando entender a dimensão que a praticidade tomou nesse mundo tão diferente do meu. Em apenas sete dias comecei a trabalhar. Com isso, minha rotina mudou bastante, as excursões pelo bairro reduziram de maneira significativa, a final de contas, saía de casa às 7h e só retornava às 21h. <br><br>Em um desses longos dias de labuta, me deu uma vontade enorme de tomar uma sopa. Fazia um friozinho, novo para mim, frio com garoa. Queria tomar uma sopa bem quente, isso me faria feliz, sem dúvida. Saí do escritório, pensei em voz alta:<br>- “Passo no supermercado compro os ingredientes e vou preparar uma sopa para esquentar a alma”.<br><br>Um trajeto que era para ser feito em trinta minutos foi finalizado em três horas e trinta minutos. Só na Avenida Berrini, acredito que fiquei mais de duas horas, sem ter por onde sair, tudo parado. Impaciente, no engarrafamento e cada vez mais faminta:<br> – “Quer saber, não vou fazer sopa coisa nenhuma. Vou direto para casa e preparo alguma coisa com o que tiver na geladeira” – decido sem pestanejar.<br><br>Mas o desejo falou mais alto. Resolvi parar no supermercado. Chegando lá, olhei para a sessão de verduras, peguei cenoura, batata, vagem, cheiro verde. Tudo descascado, picadinho e bem embalado. <br>- “Agora sim, entendi!”<br><br><br>E-mail: [email protected]