Olá, à Administração da São Paulo Turismo S/A e a você, que neste momento está iniciando a leitura desta! Meu nome é Walace, mas no local onde se passou esta história, que abaixo irei contar, fui muito conhecido como Nenê da Cuíca!<br><br>Dentro dos anos 70, eu, na faixa dos 20 anos de idade, comecei a perceber o meu interesse e vocação pelo samba, de forma que procurei envolver-me com alguns instrumentos musicais de percussão e, dentre estes, a minha emoção me fez abraçar a cuíca, instrumento que desde então, e até hoje, se tornou meu agradabilíssimo e inseparável companheiro, nos meus momentos de maior emoção, que são as diversas rodas de samba das quais participei, participo e espero poder participar durante ainda muitos anos, até o final da minha vida!<br><br>Bem, mas como o próprio título divulga, sobre as "Palmas do Tremembé", eu vou falar mais precisamente das malandras noites, movidas ao som dos sambas de roda, por onde passou um incontável número de pessoas e, dentre estas, várias se tornaram famosas no meio artístico, amador e profissional. Me permita, anteriormente, falar de quando conheci as Palmas do Tremembé, para que se torne mais completa esta história, com referência à própria Palmas do Tremembé!<br><br>Nos anos 60 ela ainda era chamada de Aterro, nessa época eu era garoto e ia passear por lá com vários amigos da minha infância. Meus passeios por lá tinham como objetivos: nadar em uma pequena lagoa, que se chamava Judeu; catar balão (como dizíamos), principalmente nas madrugadas do mês de junho, quando o inverno era tão rigoroso que, mesmo estando vestidos com roupas quentes, tínhamos também que ficar ao redor de fogueiras, que fazíamos com galhos de árvores, que encontrávamos por lá; jogar futebol (os famosos rachas) em vários campos que lá existia, entre eles os campos do São Jorge, Willian Harding (me parece que até hoje ainda existe) e o mais famoso de todos onde os principais times da região jogavam, entre si e contra outros times de locais distantes, que era o campo do Morato (no lugar dele, hoje, tem uma escola estadual), este se localizava próximo aos primeiros prédios (prédios do Ipesp) ali construídos e até hoje existentes; caçar passarinhos. As Palmas do Tremembé era uma grande área que possuía, além dos campos de futebol, também diversas ruas asfaltadas e com pouco movimento de automóveis. Já nos anos 70, surgiu a moda de andar de carrinhos de rolimã, principalmente aos domingos, onde aparecia gente, garotos e garotas, de vários bairros. Tive participação também neste momento, mas me restringirei neste e, a partir de agora, falarei, principalmente, das "madrugadas das Palmas", ao qual o próprio título sugere!<br><br>Anos 70 – coincidindo com a fundação da escola de samba Acadêmicos do Tucuruvi, da qual fiz parte, surgiram, também, nas Palmas do Tremembé, as primeiras rodas de samba. Estas se davam dentro de pequenas barracas, com cobertura de uma lona, que era apoiada em uma perua Kombi, que trazia bebidas, salgadinhos, carne para churrasco e, claro, a churrasqueira, onde eram assados os churrascos, vendidos aos inúmeros frequentadores do local. Dentro dessas barracas eram montados dois ou três bancos feitos de tábuas, que eram trazidos também na própria Kombi. Nestes bancos sentavam, principalmente, os sambistas, isto é, somente os que sabiam tocar algum instrumento. Devo dizer que naquela época somente os que eram vistos e (ou) respeitados, como malandros, tinham o seu lugar garantido nos bancos do samba. <br><br>Pelo que me lembro, espero não estar cometendo alguma injustiça, a primeira barraca ali existente, anterior a estas que eram montadas junto a uma Kombi, tinha como proprietário um tal de Carmelo (por não tê-lo conhecido bem, não tenho muito a falar sobre ele e nem mesmo a certeza de que era esse mesmo o seu nome). Estava localizada atrás de uma das traves do gol, do campo do Willian Harding. A entrada da barraca situava-se praticamente em uma esquina de duas ruas, onde uma delas se tornou poucos anos depois um dos maiores redutos de samba em São Paulo. Comentando um pouco mais sobre esta primeira barraca, me lembro que em uma madrugada, não muito tempo depois de ter iniciado os tais encontros com pequenas rodas de samba, houve uma briga e o tal dono da barraca decidiu proibir novos sambas, então, o samba por lá parou. Devo dizer que, mesmo dentro desta sua proibição, ele ainda teve que amargar alguns encontros com samba, antes que se parasse totalmente.<br><br>Pouco tempo depois de se ter aceitado e respeitado essa tal proibição surgiu a primeira barraca, montada junto a uma Kombi (de cor bege se não me falha a memória). O (saudoso) proprietário daquela barraca, cujo qual após algum tempo nos tornamos grandes amigos, era um tal de Chicão. Era um homem de pele morena escura, estatura média, usava óculos de grau, com ar simpático e ao mesmo tempo desconfiado e atento, característica, em minha opinião, obrigatória a se ter naquele local e ramo de trabalho. Na barraca do Chicão, em todos os finais de semana, principalmente nas sextas-feiras e nos sábados, o samba se iniciava no começo da noite e ia madrugada adentro, até o raiar do dia, quando não até a tarde do dia seguinte. Conto depois, se tiver nova oportunidade, algumas passagens curiosas ocorridas dentro e ao redor desta barraca. Embora a barraca do Chicão tenha sido de extrema importância, tanto pelo seu pioneirismo nas barracas de rua quanto por ter sido a protagonista de muitos fatos curiosos e interessantes ocorridos naquela parte das "Palmas do Tremembé", usarei a liberdade que aqui possuo para restringir estes tais fatos neste momento e contá-los, pelo menos alguns, em outro momento, assim evito que você leitor(a) se sinta cansado(a) de tantas palavras.<br> <br>Concluo então, neste possível primeiro envio, citando, sem maiores detalhes, a última barraca com samba que houve nas Palmas do Tremembé. Seu proprietário, de nome Wanderlei ou Vanderlei, deveria ter em torno de trinta anos, era de estatura média, cor branca. Após alguns anos de permanência no local, no outro extremo da rua após onde houve a primeira barraca, ele resolveu transformar o samba de mesa em algo mais chamativo, pela altura do som, utilizando caixas de som e microfone. Após algum tempo, substituiu o samba por música sertaneja, algo que estava na moda no momento. Mas, finalizou, após não muito tempo, tendo que deixar o local. <br><br>Assim encerra o ciclo noturno “Palmas do Tremembé". Se possível, havendo outra(s) oportunidade(s), retornarei contando outras passagens daquelas madrugadas, sempre com a total e incondicional verdade! Obrigado pela sua atenção! Abraços! Nenê da Cuíca.<br><br><br>E-mail: [email protected]