Subíamos a Rebouças em direção à Paulista no 577-10. Como de rotina, trânsito intenso. Para, anda. Mais para do que anda em uma morosidade terrível. Um empurra-empurra que levava à exaustão. Cada qual se segurando da maneira que podia, literalmente encaixados como sardinhas na embalagem da Auto Viação Para Todos. Todos no mesmo pacote, no mesmo molho, suados e cheirosos.
Àquela hora, às 6h, pior que viajar em pé e espremidos em uma condução lotada, em um fim de tarde calorento, era aguentar o passageiro bêbado que não parava de incomodar a senhora que seguia sentada, lápis e o coquetel em mãos, tricoteando suas palavras cruzadas, ludibriando o tempo e o sufoco.
Uma letra aqui, outra ali vai preenchendo os quadrinhos da página e formando as palavras com todo o cuidado. O sujeito em pé, ao seu lado todo despojado, camisa desabotoada e por fora da calça, com ar de quem bebera toda a pinga do mundo, era só balanço. Com esforço descomunal se escorando nas pessoas para não cair, tenta acompanhar quase que mecanicamente os movimentos dela. A cada palavra preenchida, o cara interrompia:
– Não, esta palavra é com dois “esses”. Agora sim, está certo. Aí em dona, conhece tudo do vernáculo.
Sem se importar até então com as interdições, ela pacientemente continua a decifrar o quebra-cabeça e a formar as linhas horizontais e as verticais. O homem, como se íntimo fosse daquela mulher, intensificou ainda mais as abordagens extrapolando todos os limites:
– Não, não é com "ge" é com "jota", “jota” de jurubeba. Ela já com a paciência saturada, levanta a cabeça e olhando sério lhe dirige a palavra:
– Cachaceiro!
– Dona, esta é com "xis", responde o intrometido.
– Além de bêbado, feio e fedorento é analfabeto – retruca a mulher.
O sujeito sem perda de tempo responde com uma sonora gargalhada:
– Ah, essa é fácil, se for com quatro letras é "nóis"!