Paixões verdadeiras

No auge de meus nove anos, cursando a quarta série do primário, no Colégio Imaculada Conceição na Rua Cincinato Braga, descobri a paixão verdadeira. Nessa idade a paixão verdadeira é aquela que vai durar até que surja uma nova paixão. Eu já estava em minha segunda “apaixonite”.

Como seria o objeto de meus ais, como diria Leonel Azevedo e J. Cascata? Ela era um pouco mais miúda que a maioria das garotas, pele ligeiramente morena com um sorriso límpido e faiscante que me demolia. Brincos pequenos de pérola nas orelhas, um delicado adorno para valorizar alguém que não precisava de enfeites. Quando sorria além do céu se abrir para mim, apareciam aquelas duas deliciosas covinhas. Cabelos curtos, castanhos claros com um tom levemente do cobre. Uma travessa, geralmente alva, prendia gentilmente os fios da pequena fada. Seu uniforme sempre impecável não se parecia com os outros; era o tecido que estava sobre a sua pele, e essa era a diferença. Sapato de boneca de verniz negros e meias brancas três quartos. A voz era macia e educada, não participava dos gritos e chilreios de suas colegas em tempo de folguedos. Parecia às vezes dirigir um olhar especial em minha direção, coisa de apaixonados na esperança da aceitação. Meras firulas. Imaginações etéreas e virtuais. Razões concretas daquela paixão não estavam colocadas em nada que fosse visível ou que eu tenha descrito nestas linhas anteriores.

A admiração intelectual por ela, já estava emergindo em meu perfil numa admiração por inteligência acima de outros motivos fúteis. No Imaculada Conceição, havia a concessão de distinções às cinco melhores médias mensais dos alunos; consistia em uma fita colorida em cinco cores cada uma das quais representando a classificação, do primeiro ao quinto lugar, pomposamente entregues no primeiro dia de cada mês, com inscrição no quadro de honra, que ficava afixado na parede do fundo da classe. Minha paixão que atendia pelo nome de Paula Marina, quase sempre recebia a fita do primeiro lugar.

Eu me esforçava ao máximo e vez por outra chegava ao quarto ou quinto e apenas uma vez consegui o terceiro posto. Curioso o incentivo que tinha para progredir no quadro de honra, a minha fixação por Paula Marina. Estou utilizando aqui o nome real e não coloco o sobrenome, mas adianto que começa com a nossa terceira vogal. Fico pensando na possibilidade em que ela pudesse ler essa crônica e se reconhecesse nela. A paixão passou, afinal o que é isso para um homem no alto de seus nove anos? Mas a boa lembrança fico, e o fato de que este sentimento escondido impulsionou fortemente a minha performance estudantil durante o ano de 1963 em São Paulo.

Obrigado Paula! Você é o primeiro lugar eterno em meu coração.

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