Pai, o placar está errado!

Nós estávamos em novembro de 1959. Nós quem? Eu, meu pai e meu irmão. Eu iria completar só próximo mês, dezembro, 10 anos de idade.

Mas, afinal, para onde nós estávamos indo? Para o Estádio Municipal do Pacaembu! Aliás, era a primeira vez que meu pai levava-me a um estádio.

Acho que meu pai escolheu um jogo no qual a vitória do meu São Paulo era quase certa, e então, ele nos levou para assistir S. Paulo FC X E.C. Noroeste de Bauru. Exatamente no dia 10 de novembro de 1959, um sábado à tarde.

Guaraná, sorvete, pipoca. Tudo antes do jogo. A partida se inicia, e o S. Paulo me dá uma primeira grande alegria: Riberto faz 1×0 pro S.Paulo.

Aos poucos, o Noroeste equilibra o jogo e vira o placar para 2×1. Lembro-me que o Norusca fez o terceiro e o juiz anulou. Mas o placar da inesquecível concha acústica apontava 3×1 pro Noroeste, apesar do gol ter sido anulado; então, perguntei pro meu pai:
– Por que lá está escrito 3×1?

Com a vaia da torcida tricolor, o homem do placar da C. Acústica consertou o erro mantendo 2×1. Só que teve um problema: o jogo acabou 2×1 mesmo, e eu estava arrasado, cabisbaixo, calado e beiçudo e quase chorando.

Na Avenida Paulista, meu pai comprou uma Cerejinha, refrigerante que estava na moda, mas eu não curti aquele refresco, porque minha alma estava despedaçada (fazer o que se é da natureza?).

Hoje tenho 60 anos, e lhes garanto que o S. Paulo proporcionou-me momentos de raras felicidades. Sempre valeu, hoje vale e sempre valerá a pena torcer para este distinto time de futebol.

Mas lhes garanto que aquelas imagens de Noreste 2 x 1 S.Paulo, daquele longínquo sábado à tarde no Pacaembu, jamais saíram da minha mente.

Aquele jogo marcou e sempre que o S.Paulo goleou, ao longo da vida, o Noroeste, eu lembrava daquela vez que, pela primeira vez, fui a um estádio. O Norusca traumatizou-me um pouco.

Com o tempo, o S. Paulo vencendo sucessivamente o Noroeste, tirou o trauma de dentro de mim e eu pude assim esquecer o Norusca como algo mais grandioso que o S. Paulo.

Quem era eu para entender em 1959 que o Norusca não era um “gigante”? E que a vitória do Noroeste foi surpreendente?

Até hoje, vejo claramente o ponta direita do Noroeste fazer 3×1 no gol da Praça Charles Muller, gol este anulado pelo juiz… Depois, ao longo de minha vida, assisti o S. Paulo enfiar 8 neles, e outras várias goleadas. Todavia, o que ficou em minha mente marcado foi o jogo de 10/11/59.

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