Na época, morávamos na Rua Coriolano, no bairro da Água Branca, pertencente ao sub-distrito da Lapa. A maioria das ruas não tinha calçamento e muito menos iluminação pública. Seria o que hoje chamamos de periferia.
Nós brincávamos na rua sem que fôssemos perturbados por algum carro, pois os poucos existentes preferiam a Rua Clélia, a única calçada na região.
Vários personagens passavam pela nossa rua: Dona Rosina, com sua sacola de roupas, vendendo para as moradoras à prestação. O vendedor de bonés com seu pregão "boné barato". O verdureiro, o peixeiro, o vendedor de bijus com sua matraca.
E o padre, que por lá transitava em busca de seu rebanho. Ao avistá-lo, todos nós corríamos e gritávamos em uníssono: "Padre, me dá um santinho". Ele, já sabendo o que o esperava, tirava do bolso da surrada batina aqueles papeizinhos mal impressos e distribuía aos garotos. Uma vez ou outra trazia santinhos de metal.
Hoje, quando avisto um padre, tenho vontade de lhe pedir: "Padre, me dá um santinho".
e-mail do autor: [email protected]