Padarias do Bixiga

Hoje eu consigo sobreviver vários dias sem mastigar um pedaço de pão, mas antigamente a coisa era diferente.

Sempre fui um consumidor constante de pão, principalmente os do tipo "italiano" que, coincidentemente, eram produzidos (leia-se muito bem produzidos) nas padarias do meu Bixiga.

O Bixiga, por conta de seus habitantes, na maioria "oriundis", sempre primou por ter boas padarias.

Lembro-me que ainda criança, morando na velha Rua Augusta, vivendo o período pós-guerra, todos os dias eu me dirigia até a Padaria 14 de Julho, na rua do mesmo nome, em busca dos três filões de pão para a família. Para tanto, o percurso a ser vencido, tanto na ida como na volta, era bastante puxado. Saía da Rua Augusta entrava à esquerda na Rua Caio Prado Jr., descia o escadão até a Avenida 9 de Julho, atravessava a referida avenida (naquela época era possível), subia a Rua Delegado Everton até a Rua Santo Antonio, subia um pedaço da Rua São Domingos, entrava na Rua Conselheiro Ramalho e, finalmente, dobrava à esquerda na Rua 14 de Julho para chegar à Padaria e comprar os pães.

Depois fazia o trajeto todo novamente, e me recompensava do esforço beliscando e comendo casquinhas dos pães e, de vez em quando, numa beliscada mais vigorosa, o bico de um dos filões.

Muitas e famosas padarias existiram e existem no bairro, dentre elas as mais famosas são: Padaria 14 de Julho (entre a Major Diogo e a Conselheiro Ramalho), a Paladino (era na Rua Conselheiro Ramalho) que hoje não existe mais, A Basilicata (Rua 13 de Maio), a Italianinha (Rua Rui Barbosa) e, padaria que no meu entender é a melhor de todas, a Padaria São Domingos.

Esta padaria é um antro de perdição para um "gordinho" esfomeado como eu. Tanto que em defesa da minha silhueta e, por que não, do meu bolso de aposentado, visito-a poucas vezes ao ano. Pelo menos, vou me perder na compra de seus produtos ao fim de cada ano, pois é nela que compro os comes que estarão presentes na minha Ceia da Passagem de Ano.

Aí faço a festa, compro as deliciosas roscas de Calabresa e de Provolone, compro a Sardela, a Aliccela, a Berinjela (Morinhana) Prensada e a Temperada, compro o Pão de Peito Tamanho Grande (para cortar à moda italiana, pois se coloca o pão redondo contra o peito e se corta com a faca ou com as mãos), a Linguiça Calabresa que é feita na própria padaria e que fica exposta na loja, pendurada em varais de arame (compro a seca para comer fatiada como se salame fosse, e a mais fresca para temperar o molho que irá compor o "fuzzilli" que também compro na padaria). Finalmente, na sessão de doces, não fico sem comprar as deliciosas "sfogliatelas de ricota" e a mais divina das Tortas de ricota que meu paladar já teve oportunidade de provar.

Tenho certeza que esta minha memória vai ouriçar as glândulas gustativas dos leitores que, ao final do texto, deverão estar salivando pelos cantos da boca.

Eu, depois de colocar o ponto final no texto, com certeza, sairei correndo e irei matar a minha gula.

Bom apetite a todos!

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