Oui, c'est la vie

"La vie c'es belle". Não há como contestar essa afirmação. Não é, na verdade, um mar de rosas, mas traz-nos momentos incríveis, inefáveis mesmo e eternos… Bem, pelo menos enquanto duram… E muitos desses momentos eu passei, sem dúvida alguma, nessa cidade incrível e cheia de novidades, nessa cidade que, além de outras virtudes, homenageia o grande apóstolo homônimo, apóstolo que também escrevia. E muito.

Lá pelos anos 70 do século passado, eu trabalhava na Rua Conselheiro Ramalho, na Bela Vista, e residia na zona leste. Como o meu horário de entrada era mais ou menos flexível, eu chegava na Praça da Sé por volta das sete e meia da manhã. E assim que descia da lotação, geralmente realizada por Kombis ou Opalas, entrava naquele barzinho que hoje fica diante da escada sul do Metrô, tomava uma média de café com leite e comia um pão com manteiga. E depois, em vez de seguir pela Rua Direita até o Largo São Francisco, para depois subir a Brigadeiro Luís Antônio, eu dirigia-me às escadarias da catedral da Sé onde punha-me a contemplar embevecidamente os pombos, que eram alimentados por um senhor que cotidianamente transportava uma sacola cheia de ração ou coisa que o valha. Somente depois de "perder" esse tempo eu seguia para o trabalho.

Encontrava nesse caminhar – subia a Brigadeiro – um prazer renovado: gente que ia e vinha, sol, barulho de veículos apressados, buzinas, gente bonita pelas calçadas, senhores e senhoras que caminhavam lentamente, contemplando o movimento e envolvidos no doce sonho da saudade, das lembranças da juventude, da infância, nessa cidade que é lindíssima, romântica, sedutora; perigosa? Sim. Mas em que parte do mundo não há perigo? São Paulo também não foge à regra.

"Oh souvenirs… aurores"… Um dia desses – hoje já não trabalho naquela empresa, não mais resido na zona leste, mas na sul – saí por aí – "pela minha cidade, pela minha vida", como diz a canção "Balada para um Louco". E fi-lo de ônibus, rejeitando voluntariamente o conforto do automóvel. E o coletivo, primeiramente, seguiu pela Avenida Santo Amaro, depois Nove de julho, chegando à Praça da Bandeira. E estava uma linda manhã de sol. Deixei a Praça da Bandeira na direção do Largo São Francisco, tomei um café no "Eclético", passei sob as arcadas da Faculdade de Direito, onde estudaram Castro Alves, Rogê Ferreira… Dei uma volta naquele pátio repleto de história, de sonhos, de amores vividos em São Paulo. E, como não poderia deixar de ser, caminhei até à Praça da Sé, que continua linda, cheia de pombos, de gente, de sonhos e de amores. Parei, olhei, sonhei também e pude então compreender melhor o poeta Mário de Andrade, que morreu amando nossa cidade, nossa metrópole, que é, a um só tempo, esplendor e nostalgia, paz e guerra, calma e fúria.

Mas o tempo havia passado, não o meu tempo, mas o tempo daquele dia e já estava batendo uma vontadinha de comer, quem sabe, de almoçar. Mas como eu estava longe de casa, parei numa esquina da praça e comi um churrasco grego acompanhado de um suco de laranja. E voltei… Mas farei novos passeios, se Deus quiser. E ele há de querer.

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