Bixiga
Quem te viu, quem te vê – Parte III
O entorno
Saímos da infância protegidos pelo amor de nossos pais, com princípios sólidos de conduta e de caráter. Modelados por eles e que será nosso norte por toda a vida.
Adeus infância. Abrem-se as cortinas e começa o primeiro ato: A Juventude.
Do colégio Santo Alberto direto para o colégio São Luiz, curso noturno.
Para nele frequentar o pretenso aluno tinha que concordar (também os pais) com várias exigências, dentre outras as de frequentar missa aos domingos, às 7 horas da manhã (havia uma caderneta de controle), e de perda de todas as aulas se o aluno chegasse fora do horário de entrada (às 19 horas em ponto). Um começo de ano letivo diferente de outras escolas onde conduta do aluno era a questão preponderante. A disciplina estava no topo da lista e ai quem dela se afastasse. Muitos diziam que melhor era a prisão.
Provoquei essa entrada propositadamente para mostrar como a boa escola é responsável para a formação, em todos os sentidos, de verdadeiros cidadãos. O Colégio São Luiz formou. Hoje, com raras exceções, poucas escolas conseguem tal proeza.
O Colégio São Luiz era dirigido pelos Jesuítas. O curso noturno tinha como diretor o inflexível, o honrado, o condutor consequente, o mestre que escondia (no bom sentido para não interferir na condução da escola) dentro de seu coração um amor profundo e partilhável. Seu nome, Olavo Pereira. Nós o chamávamos de Irmão Pereira. Irmão porque não chegou a ser ordenado padre. A doença o impediu. Era frágil fisicamente, mas um gigante espiritual e moralmente. Um "sopro" mais forte poderia derrubá-lo de tão magro que era, corroído pela doença. Entretanto, pela sua fé, pelo senso de dever a cumprir, tornava-se uma verdadeira rocha. Assim era o Irmão Pereira. Lá estava ele todas as noites com seu apito conduzindo a entrada dos alunos do recreio para um salão de estudos enorme. Era quase uma centena de alunos de todas as séries. A disciplina rígida, o silêncio absoluto. Rezávamos e, após, os alunos eram distribuídos às suas classes. Além de diretor o irmão Pereira dava aula de latim. Recordo-me que em uma das aulas um aluno chamado a ler um trecho de uma fábula alegou que esquecera o livro. O irmão lhe questionou: “Aqui no seu trabalho (escola) sua ferramenta principal é o livro. Não poderia ter esquecido. O Sr. está suspenso por um dia.” O dito aluno retrucou um pouco moleque que esquecera no seu trabalho e que não era justa sua suspensão. “Ah!, é”, disse o irmão, “pois bem, o Sr. está suspenso não um, mas dois dias. O Sr. esquece de comer?”
Eu pergunto: se não houvesse a punição, o aluno voltaria a esquecer o livro? É claro que sim. Entretanto, cumprida a suspensão, aquele aluno nunca mais esqueceu o livro em sua casa ou no trabalho.
Em outra ocasião, reunidos no salão de estudos para início das aulas, houve um fato pouco cômico e ao mesmo tempo de reflexão. O irmão Pereira, para pôr ordem na "casa", fez uso de seu apito. Não é que um aluno gaiato gritou “goooool”. Risos ecoaram no salão.
“Quem foi que gritou.” Perguntou o irmão. Silêncio total. “Pois bem, todos de pé. Ficaremos assim, se for preciso, a noite toda, até o aluno que gritou se apresentar.” O fato aconteceu mais ou menos às 19h30. Só às 23h00 o dito aluno deu as caras.
Os fatos acima narrados podem parecer de chofre bizarros. Mas não é.
Ficamos todas essas horas, inclusive o irmão Pereira, de pé e muito cansados. Os fatos vão mais além. Eles nos levam a uma reflexão mais afinada com a formação de cidadania responsável. De dever a ser cumprido consigo mesmo e com o próximo de hombridade perante os fatos e à vida. Foram muitos os exemplos de vida digna que o irmão Pereira nos legou. Ele nos forjou como o ferreiro que transforma o ferro bruto em peça de valor. É claro que fomos reconhecer bem mais tarde (após o início da juventude) que ele foi responsável, em boa parte, pela formação de nosso caráter, pela iniciação de cidadania digna e principalmente nos fazendo ver que o homem só é verdadeiro homem quando respeitar e exalar muito amor ao próximo.
Nós, alunos, só fomos perceber que estávamos diante de um homem santo quando da nossa formatura. Na sua humildade ele se recolheu ao claustro e não compareceu à festa de formatura que alegremente festejávamos. Ele nos deixou à vontade. Mas nós alunos não deixamos por menos. Não ver nessa hora nosso guia espiritual e moral? Saímos em busca do Irmão Pereira. Dirigimo-nos ao claustro e lá o encontramos rezando. Foi nesse momento que ficamos diante de um verdadeiro santo. O homem "duro", inflexível, que fazia que cumpríssemos nossos deveres a todo o custo, veio a nós chorando e pediu perdão por erros eventualmente cometidos durante o curso, que então terminava, e abraçou cada um de nós. Esse homem só pode ter sido enviado por Deus.
Não esquecemos dos bons professores que muito contribuíram para nossa formação, como: Prof. Dino Fontana, Waldomiro Padilha, Fauze Saadi, Sylvio Barberi, Padre Cláudio Peres Vidal, Lávio Lacerda, Eugenio Peccoraro, e outros.
Colegas como Adelino Carneiro, Alexandre Natale Nacca, Arnaldo Humberto Saltini, formamos um plêiade de bons e saudáveis amigos na época. Onde andarão? Milton Carlos Nonato, Fernando José Pacheco Jordão, João Pamphilo Di Giacomo, José Iunes, Alves, Otto Ringel, Ruy Ariovaldo Lessi, Sebastião Raphael Terra, dentre outros.
Algumas vezes participava de Retiro Espiritual nas dependências do Colégio. A princípio, eu, como outros alunos, achava "chato" tal evento, que começava bem cedo e terminava só tarde da noite. Puro engano. Havia palestra a cada hora. Palestras de cunho religioso, palestras sobre a vida, sobre filosofia, sobre cidadania etc. No intervalo das palestras cada participante se recolhia a um local para meditar. Era como confessar consigo mesmo. Perscrutar toda nossa vida, das coisas boas, das ruins, dos caminhos a seguir, tudo vinha como um filme. As palestras nos envolviam a tal ponto que levavam nossos pensamentos a vasculhar nossas almas e a partir daí a reflexão.
O Colégio ficava na Avenida Paulista e a entrada pela Rua Bela Cintra.
À noite, depois das aulas (às 11h00), andar pela Paulista era a maior tranquilidade. Eu seguia a pé até a Brigadeiro Luiz Antonio e daí até minha casa, na Rua Major Diogo. Uns cinco quilômetros. Andar hoje esse percurso sem ser assaltado é ganhar na loteria. Bons tempos aqueles. Às vezes, saindo de sua casa na Paulista e passeando tranquilamente, dávamos de cara com o Conde Francisco Matarazzo, que educadamente nos cumprimentava. Não raro saía com seu imponente Cadilac de chapa n.1, sem seguranças, obviamente.
Falando sobre o Conde vejam o que fizeram com sua mansão que abrangia um quarteirão. Transformaram-na em estacionamento para veículos. Sabem por quê? Certa Prefeita de ideologia pobre e pré-histórica, sem largueza de vistas, quis transformar o imóvel em casa do trabalhador. Por que não o museu do Matarazzo? Lá poderia ser mostrado ao trabalhador como um homem que emigrou da Itália pobre conseguiu, com força de seu trabalho, muita luta e mais trabalho, construir um império? Não seria um incentivo ao trabalhador? No fim das contas sobrou um estacionamento. Que pecado. Que falta de memória histórica.
Caso quase idêntico aconteceu com o rei do café. Ele veio também como emigrante da Itália, bastante pobre lutou sol a sol no cultivo do café e fez fortuna. Não é um exemplo de trabalho a ser seguido? Eu falo do Sr. Lunardelli, cuja casa maravilhosa ficava na Avenida Brigadeiro Luiz Antonio, esquina com a Rua dos Franceses. Não poderiam transformá-la em museu mostrando passo a passo o valor do trabalho na conquista de bens? Mas não, o trabalho parece lepra para alguns brasileiros. Infelizmente a corrupção se tornou paradigma. A casa do Sr. Lunardelli foi desmanchada, que pena.
Falando da Avenida Paulista que saudade ela nos traz. Uma das avenidas mais bonitas da capital. Toda ricamente arborizada. Dava gosto passear por ela. Com meu pai aos domingos ia ao Trianon. Brincava a valer. Meu pai me empurrava na balança e após fazia questão de beber água na fonte que tinha a cara de um leão. Ficava extasiado ao ver o bicho preguiça se movendo vagarosamente. Meu pai ria. Domingos inesquecíveis eram aqueles. Tinha uns quatro anos.
Voltei ao Trianon faz pouco tempo. Tudo está do mesmo modo. A balança a mesma, a fonte lá está, o bicho de preguiça também. Só não estão os anos passados. As lembranças sim, elas sempre estarão no Trianon.
Falando da Avenida Brigadeiro Luiz Antonio recordo-me da Cruzada Pró-Infância (mais que um posto médico). Minha mãe me levava para tomar um óleo que servia para combater vermes. Era praxe naqueles tempos. Foi lá que com meus mais ou menos dez anos extraí as amídalas. Não uma vez, mas duas, pois ficou um pedaço. Olhem só o ritual. A imobilidade era total. Com as mãos juntas ao corpo você era enrolado num lençol e esperava sua vez para a cirurgia. Lembro que havia umas vinte pessoas na minha frente aguardando. Extrair as amídalas era rotina, pois os médicos achavam que elas não serviam para nada, ou mais ainda, eram causadoras das laringites e faringites.
O pior está para ser contado. Enrolado no lençol te colocava numa cadeira tal qual a cadeira elétrica, na qual prendiam teus braços e pernas. Abre a boca, dizia o médico. Ao abri-la ele colocava um aparelho que impossibilitava fechá-la. Aí vem o pior: a extração era feita sem nenhuma anestesia. A dor era terrível. Depois o paciente era levado para uma sala e passava a tomar sorvete e chupar gelo. Finalmente minha mãe me colocou no colo e voltamos para a casa. Orientação médica: passar dois ou mais dias sem comer. Só líquido preferencialmente gelado.
A Cruzada Pró-Infância tornou-se bem mais tarde no Hospital Pérola Byington e até hoje funciona na Brigadeiro Luiz Antonio. Em frente ficava a famosa Rádio São Paulo, a pioneira das novelas radiofônicas. Tinha uma sala ampla separada por um grosso vidro. De um lado nós, os assistentes, e de outro os atores. Assistíamos às novelas ao vivo. Aquela que mais me impressionou foi “Os Três Mosqueteiros”, de Alexandre Dumas. A "mocinha" que fazia o papel da Rainha chamava-se Sonia Ribeiro. Tinha uma voz aveludada e doce. Essa Sonia mais tarde tornou-se uma famosa jornalista e casou com o também famoso Blota Jr.
Outro ator famoso nessa novela foi Enio Rodrigues. A voz mais bonita da Rádio Paulista. Na novela “Os três Mosqueteiros” ele interpretava o audaz D'Artagnan.
Os assistentes atônitos vibravam com a interpretação que os atores transmitiam aos seus personagens. Os efeitos sonoros dados a cada momento dos capítulos eram sensacionais. Nas tempestades com trovoadas entravam as folhas de zinco. Nos galopes dos cavalos entravam duas metades de coco seco que batiam sincronizadas numa superfície. Sem falar do ranger das portas, do andar sobre cascalhos etc.
Toda a técnica manualmente elaborada. Que arte. O rádio e suas novelas, podemos dizer, sem errar, contribuíram com uma enorme parcela no desenvolvimento da intelectualidade do homem.
Como contribuíram? Manipulando e dando asas à imaginação. Faziam o homem viajar pelo infinito, dar coloração aos objetos. Tornaram o homem um pouco poeta, um pouco escritor. Enfim, fizeram com que o homem pensasse mais usando sua imaginação. Devemos agradecer ao rádio e suas novelas pela contribuição no desenvolvimento do intelecto.
Parafraseando aquela letra de música que diz "recordar é viver"…, podemos acrescentar, sem medo de errar, que recordar também é ensinar, é dar vida à história, é qualificar sentimentos. Enfim, é o ato de congelar os fatos no tempo.
Recordar é também testemunhar Cristo.
Recordar: Sublimação do espírito para a vida.
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