Tenho escrito e lido vários textos sobre São Paulo. Normalmente são textos que falam do ontem, tempos muito bons e saudosos. Mas, neste meu relato, quero falar do hoje, da cidade vista e vivida sob a ótica de uma representante da<br>terceira idade. Acredito que terceira idade é um eufemismo que inventaram para idoso, como se dizer velho ou velhice fosse uma ofensa. Muito pelo contrário…<br><br>Envelhecer é uma dádiva, uma escolha divina, posto que muitos foram ficando pelos caminhos enquanto nós, os escolhidos, fomos brindados por mais esta etapa da vida. Que só poucos e agraciados poderão desfrutar e conhecer com todos os seus encantos e mistérios. Vejo o envelhecer como um entardecer que pode ser magnífico, deslumbrante até, desde que se tenha vivido todas as outras idades e etapas, plenamente, sem queimar nenhuma delas, nem suspirar por elas, porque podemos ser tentados a querer voltar, comportando-nos e agindo e nos vestindo, como os jovens que deixamos de ser e isto nos tornará ridículos.<br><br>Em primeiro lugar diria que atualmente, aqui em São Paulo, fomos agraciados com políticas voltadas exclusivamente para os velhos paulistanos, natos ou adotados como tal. Tiraram nossos pijamas, chinelos e cadeiras de balanço e nos deram oportunidades várias: temos os Clubes da Cidade ( antigos balneários ) com atividades gratuitas variadas, acompanhamento com profissionais das áreas esportivas e médicas, aulas primorosas (cito prof. Elaine, Dora, Maguimar e Vivian do Ipiranga ) e até há a formação de grupos de idosos obesos sendo atendidos por nutricionistas, psicólogos, enfermeiros e médicos. O Centro Cultural, na Rua Vergueiro, oferece várias oficinas culturais, cinema, teatro, ginástica e aulas de danças de salão com professores da mais alta qualidade (cito o prof. Mateus). Nos salões das igrejas, professores voluntários nos dão aulas de artesanato e danças (cito o prof. Pedro, de tango). Isto nos dá qualidade de vida, saúde física e saúde mental. Isto nos insere no contexto!<br><br>Há várias outras políticas como o bilhete de ônibus e de metrô gratuitos, fora que o metrô oferece vários circuitos pela cidade. Há o Pólo Cultural do Cambuci, há o Mopi (movimento dos Idosos), sem esquecermo-nos das várias excursões, passeios e festas nas quais somos levados, acompanhados por professores e em ônibus enviados pela prefeitura da cidade. Em todas as atividades há merendas que são distribuídas para todos os alunos. Uma vez ao ano, há o JORI (jogos regionais dos idosos), com disputas de vôlei adaptado, handball, natação, dominó, bocha, dança de salão, etc.. Somos tratados com carinho, com profissionalismo e respeito.<br><br>Todas estas políticas e preocupações nos vão tornando idosos bem resolvidos, centrados, articulados, saudáveis fisicamente e mentalmente e ficamos até mais bonitos do que os idosos de outrora. Como dizem: “já não se fazem mais avós como os de antigamente!” Somos antenados, modernos, cheios de garra, mas também avós ternos e amorosos. Eu, particularmente, dedico dias aos meus netos e aos meus filhos que, como li em um dos textos desse site, “se mudaram para suas vidas", os quais amo de paixão, respeito, admiro, visito, mas lhes deixo viverem com tudo o que tiverem direito e crescerem com seus erros e acertos, viverem suas opções e seus livres-arbítrios.<br><br>Pauto minha vida, como idosa, sob dois princípios básicos: não dito regras e não fiscalizo barbados. Cada um que siga seus caminhos, mas que depois assuma as consequências de suas escolhas e de seus atos. Por estar "caminhando de volta para o colo de Deus” (como bem disse Gilberto Gil) eu tenho trabalhado a espiritualidade, acredito em um Pai e Deus e em Jesus, dos quais venho me aproximando cada vez mais. E em uma casa nossa, eterna, nos céus. Não me levo muito a sério, não tento mudar ninguém, tento sim me mudar para me tornar uma pessoa melhor, mais tolerante e menos chata.<br><br>Não poderia deixar de citar as perdas (muitas) pais, irmãos, parentes, amigos queridos, a própria cidade que vai se descaracterizando, o anonimato da aposentadoria, tanta coisa, que é preciso administrar e deixar correr a vida. À medida que envelhecemos vamos perdendo as raízes e nos sentindo ao léu, feito folhas ao vento. Precisamos estar sempre prontos e nos soltarmos nesse vento em busca de novos caminhos. Trabalharmos o desapego e a<br>impermanência é de importância fundamental nesta fase da vida, para nossa própria sobrevivência, entendermos que nada e ninguém é de ninguém, e nada e nenhuma coisa ou pessoa deste planeta vai permanecer aqui para sempre. Até este planeta azul, lindo de se ver, um dia também vai desaparecer…<br><br>Sou muito agradecida pelas políticas municipais em prol dos idosos que nos proporcionam um melhor padrão de vida, uma visibilidade que não tínhamos antigamente e uma vida digna e respeitosa, quero finalizar citando este<br>site que nos irmana, alegra e a satisfação em pertencer ao seleto grupo de autores e leitores, cultos, talentosos e especiais.<br><br><br> ”A VELHICE "<br><br> Sou velho,<br> e isso me dá o direito de dizer o que bem entendo,<br> e cortar a conversa quando me convém.<br><br> Sou velho,<br> e uma lei maior subentendida e explícita<br> nas entrelinhas da vida me protege.<br><br> Porque já vi de tudo e sei de tudo,<br> tenho este ar superior e este sorriso condescendente.<br> Porque já nada espero tenho a calma final<br> de quem já nada espera.<br><br> Sou velho<br> e os meus cabelos brancos e estas rugas são sinais,<br> meus sinais de um parto iminente:<br> – Sou nasciturno de um mundo diferente.<br><br> Sou velho,<br> e isso me torna invulnerável, e respeitável,<br> e comparável às porcelanas preciosas de um antiquário” <br><br> (Telma Mendes Casal) <br><br><br><br>E-mail: [email protected]<br>