O primeiro é sempre o primeiro; é aquele que a gente nunca esquece, que marca para sempre. Indelével ao tempo, permanece como cicatriz. Sempre a nos lembrar do ferro em brasa da vida, que nos marcou.
Nem sempre primeiro amor é a primeira namorada. E assim foi comigo. Tempos bicudos aqueles em que tive o meu primeiro amor; eram os idos de 1968 e 1969 e a repressão comia solta. A ditadura invadia nossas vidas e nos
tomava o direito de participar e opinar.
Eu, como vários jovens da minha época, agia contra ela, tentando resgatar o direito de opinar sobre os destinos de meu país. Foi quando conheci uma espanhola linda de morrer, chamada Sidney (era este mesmo o nome dela,
Sidney)!
Ela morava nos altos da Rua Paulo Avelar, lá na Parada Inglesa, onde também eu morava, só que na Rua Sérvio Caldas. Foi ela, a primeira mulher que realmente amei.
Namorávamos e, conforme o tempo passava, mais adulto eu ficava e mais me envolvia com ela e com os movimentos estudantis que se posicionavam contra o governo da época. Até que me tornei um “elemento perigoso" para o Estado estabelecido.
Passei a ser um "perigo" para a sociedade e para quem convivia comigo, principalmente ela, que coitada, não sabia de nada. Tornei-me um subversivo, nos dizeres da época. Por amor a ela, dela me separei.Porque se eu caísse nas garras da repressão, como de fato mais tarde caí, ela também sofreria as conseqüências.
Os agentes da repressão não acreditariam que ela não sabia de nada. E a Sidney, além de meu primeiro amor, transformou-se em minha primeira renuncia; a marca que carrego até hoje no peito. Sem mais nem menos, sumi da vida dela e da Parada Inglesa, ninguém mais sabia de mim, nem minha família. Cai na clandestinidade.
Muitos anos depois, quando a loucura deu lugar ao bom senso, já no inicio dos anos 80, voltei para o meu bairro,a Parada Inglesa, porém a época já era outra, as condições eram diferentes e a família dela não morava mais na mesma rua. Ninguém sabia para onde tinham se mudado.
Nunca mais soube dela, mas gostaria que ela tomasse conhecimento desta história, para saber que por amor a ela, fui obrigado a deixar de amá-la, mas que seu nome, sua imagem e tudo que ela representou para mim, ficou gravado para sempre na minha alma!
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