Os Urubus da Cidade

Sempre fui apaixonado pelo centro da cidade, da "cidade", como antigamente dizíamos. Minha mãe, devota de Santo Antonio, fazia novenas pedindo graças e todas as terças-feiras íamos para a "cidade". Tomávamos o ônibus 37–Praça do Patriarca, em seu ponto inicial na Rua Candido Espinheira, esquina com a Rua Monte Alegre, e descíamos na porta da igreja.
Cumprida a obrigação, dávamos umas voltas no centro para que minha mãe, dona Didi, olhasse as vitrines. Às vezes, quando as condições permitiam, íamos até a Leiteria Pereira, onde eu "tomava" uma geléia de mocotó e guardava o copinho.
Assim é que o velho centrão ficou aliado às recordações da infância, puberdade e adolescência, principalmente porque iniciei o ginásio no São Bento e sendo assim, durante alguns anos vinha à "cidade", até nos domingos, porque tinha obrigação de assistir a missa das 8 horas na basílica.
Passado esse tempo, quiçá o melhor de nossa existência, afastei-me porque passei a estudar em Perdizes e, em 1958, fui para o interior do Estado. Passei por lá, em diversas cidades (nunca a menos de 400 quilômetros de distância da capital), perto de 9 anos, até 1967 quando voltei para minha terra.
A partir daí só raramente ia até o centro, poucas vezes até o coração de São Paulo, o Pátio do Colégio. Agora, 40 anos depois, vim trabalhar no Largo de São Francisco! Estou matando a saudade paulatinamente.
O prédio em que passei a viver é um edifício do tempo antigo, com salas de pé direito de quase 5 metros de altura! As janelas também são enormes e se abrem exatamente para o largo, divisando-se toda a praça e também as Ruas Líbero Badaró e José Bonifácio, desde que me situo no 12º. Andar.
Minha mesa fica ao lado da janela e eu gosto de aproveitar a luminosidade do dia abrindo total mente as cortinas. A primeira coisa que se avista é o edifício Altino Arantes com a bandeira (sacrossanta) paulista tremulando no alto de sua torre. Aliás, está precisando ser trocada, porque esta começando a se rasgar…
Foi nesse meu refúgio tão agradável que comecei a notar o vôo diário de um grupo de urubus, acredito eu que sejam sempre mais ou menos os mesmos que venho observando durante estes últimos meses.
No mais das vezes são dois e nunca passaram de seis. O curioso e que me chamou mais a atenção é o fato de que passam o dia voando em círculos sobre os prédios da Rua José Bonifácio. Quando se afastam um pouco não vão além da Praça da Sé.
Segundo fui informado por colegas de serviço, que aqui trabalham há mais tempo, os urubus, do grupo negro retinto, são "habitués" de longa data, sendo conhecidos de grande número de pessoas.

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