Mãos à obra! Dicas para encontrá-lo não nos faltam! E parafernálias para escavações também não! Mas espera aí! Não se empolgue assim tão depressa, lhes falo do ouro subjetivo, e não do raro metal! Para divagar sobre tema tão rico, basta estar vivo. E convenhamos, cada um de nós, buscamos o nosso ouro. Seja um bom emprego, um bom comércio, uma boa indústria, ou um bom profissional liberal! E Sampa é sem dúvida o campo mais procurado para explorações em todo o continente sul-americano. Por que viria gente do mundo todo para cá? Colônias aqui radicadas demonstram esse fato! Que Sampa é a maior mina aberta para se enriquecer, isso é líquido e certo! Todos nós temos conhecimento de mais de um personagem, que aqui fez a América, como dizem os italianos. Mas também têm histórias daqueles que enlouqueceram na tentativa de encontrá-lo. Têm também aqueles que foram dados como mortos na guerra, e ressuscitaram em Sampa! Vou lhes contar três casos: o primeiro do sr. Julien Penrose; ele foi encontrado em estado semi-morto numa ilha do pacífico sul, sua única identificação era uma corrente com uma chapa de metal com o seu número e do batalhão a que pertencia. Foi a sua salvação. Ficou sabendo então que a guerra terminara um ano antes. Perguntado como se alimentava, respondeu que comia raízes de plantas, lesmas e outros pequenos animais. Por fim, depois de uma longa recuperação veio à Sampa, e aqui encontrou o seu ouro.
O segundo é de um espanhol foragido que era do regime ditatorial. Veio direto para Sampa. Patrícios seus lhes arrumaram um emprego como vendedor ambulante. Percorria as ruas de Sampa batendo de porta em porta. Sua preferência era pelos bairros do Brás e da Moóca, onde se concentrava a colônia espanhola. Morava só, e chorava muito por isso. Um dia, foi convidado por um senhor para entrar em sua casa. Enquanto esperava ser servido o café, ele observava as fotos que estavam sobre uma mesa. Perguntando sobre uma foto que lhe parecera familiar, a resposta foi: é meu avô! Resumindo, feita a identificação dos nomes e sobrenomes, os protagonistas eram primos. O espanhol encontrara o ouro espiritual.
O último é de um jovem húngaro, refugiado que era do seu país sob o julgo soviético. Fugira do convívio familiar, pois que não agüentava mais a humilhação a que era submetido. Durante a fuga prometera a si próprio que um dia libertaria seus pais e irmãos do sofrimento. Chegando à Áustria, lá não foi aceito. Mas não o deixaram na amargura. O serviço de refugiados austríaco o embarcou para o Brasil, e veio direto para Sampa. O escritório de refugiados de Sampa imediatamente colocou-o em uma fábrica. Ele foi morar comigo em uma pensão na aclimação. Não tinha quase nada de pertences. Deram-lhes algumas poucas roupas, entre as quais, peças íntimas do enxoval feminino, que nós rimos muito quando desembrulhamos e vimos o que era. Miguel venceu em Sampa. Seu triunfo se deu pelo fato de ele ter cursado até o ensino médio em seu país. Lá o ensino era obrigatório até o médio, conforme ele atestou. Tempos depois encontrei-o alegre e feliz numa feira livre da praça Roosevelt, me apresentou sua mulher, e deu-me seu endereço, um apartamento na Augusta. E por fim me disse que as suas promessas foram cumpridas!
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