Os "telefones"

Em 1954 ainda garoto franzino, fui convidado a jogar futebol, num daqueles times varzeanos, de pouca expressão. A Portuguesinha de Vila Nair, clube sem campo, tendo como sede um barracão de madeira, quase na esquina das ruas Cinco de Julho e Capichanã. Não me lembro de quem partiu o convite, mas lembro-me que também estaria estreando o Rubão (irmão do Valter Avancini)…

Reunidos na hora marcada, lá fomos na carroçaria de um caminhãozinho "Studebacker" já bem velhinho Propriedade e ferramenta de trabalho do "Biguá". Chegamos até o campo do "União Vergueiro" que situava-se na Vila Mariana, num descampado que futuramente seria uma das maiores favelas de São Paulo; posteriormente transformado num dos bairros mais "chiques" da região – Jardim (?) Klabin.

O campo de futebol era um terrão vermelho, que tinha no lado de cima apenas alguns barracos de madeira e pra variar um deles um "boteco". Num dos cantos do campo, a distribuição de camisas para o segundo quadro, "os cascudos". Recebi a minha, número quatro, branca com faixas diagonais verde/vermelho. E lá fomos ao jogo.

Quando terminou o primeiro tempo, fui sacado, sem maiores detalhes… Murchei. No meu lugar entrou o Rubão… Fiquei sentado ao lado do grupo, e o pessoal de primeiro quadro começou a se preparar. O "técnico" ia distribuindo as camisas, calções, e meias aos "craques"… Chegou perto de mim e atirou-me o uniforme sem nada falar… Olhei pro Rubão e ele… – Pô… Vai jogar no primeiro, meu.

Ainda incrédulo fui ao "treinador" e ele diz: – Se troca logo, (acho que ele não tinha outra opção). Foi minha primeira partida no time que tinha o apelido de "Os telefones", cujo único que destoava era eu,… Branco… Os dez demais eram todos "Negrões" bons de bola e de briga também (Neno, Lelo, Ciciá, Julião, Tião (da Ercilia???), banguela, com caninos brancos e sempre sorrindo. E outros que o "arquivo" teima em não lembrar. Jogamos e ganhamos… 2 x 0.

Eu era um dos mais fracos do elenco, tanto em qualidades futebolísticas, como em porte físico. Era o mais novo, porém ai de quem se atrevesse a dar uma entrada mais dura nas minhas finas canelas… “Os telefones” já engrossavam… Eu me sentia protegido.

Onze anos depois, coincidentemente, joguei pela última vez na Portuguesinha, no mesmo campo. Com o mesmo adversário, porém agora no meio de uma grande favela. “Os telefones” já não estavam… Chegamos a ganhar de 2 x 0, mas o jogo só terminou, quando empataram… Para nosso alívio.

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