Já afirmei e reafirmei neste site meu amor pelo Bixiga e, lógico, pela minha escola de samba.
Na festa de lançamento do livro, tive o prazer de encontrar duas figuras proeminentes e carismáticas da minha Escola Oswaldinho da Cuíca e o grande Tobias (cantor, puxador de samba e atual presidente da Escola), que, na saída da festa, ainda reclamou que se falou pouco ou quase nada do Bixiga.
Muito bem, o encontro dessas duas pessoas me levou a pensar na Vai-Vai quando ainda era um Cordão Carnavalesco e desfilava airosa pelas ruas do Bixiga. Lembrança vai, lembrança vem, e eis que, nas minhas retinas, surgem as imagens de duas figuras das mais tradicionais da agremiação alvinegra. Dois nomes que merecem ser cultuados pelas novas gerações vaivaianas (se o termo não existir, fica aqui inaugurado). Quem são eles? Pois bem, são Genésio e Mulata.
O Genésio, um negro de pequena estatura, liso como uma pedra de gelo, mágico com uma baliza nas mãos. Aqui, é preciso fazer um parêntese e explicar que a baliza era um pedaço de pau (um cabo de vassoura), com mais ou menos um metro de comprimento, devidamente encapado nas cores da Agremiação e com o brilho das lantejoulas. O abre-alas (neste caso específico, o Genésio) usava-o para fazer malabarismos e pedir passagem ao povo, abrindo alas para o Cordão desfilar.
Muitos abre-alas eu assisti, mas nenhum que tivesse chegado aos pés daquele crioulo. Trançava a baliza por dentre os dedos com tanta facilidade e, depois, arremessava-a para o alto. Aliás, muito alto, e a recuperava artisticamente, sem deixá-la ir ao solo, e dentro do compasso do samba. Fazia tudo isso sem perder a elegância e o rebolado, sambando com toda a arte que Deus lhe dera.
O Mulata, também crioulo, também malandro, também percussionista, também sambista e, claro, grande passista.
Tinha um papo delicioso, falava quase que somente na gíria. Seu porte esguio fazia dele uma figura marcante. Foi um dos baluartes do velho Cordão Carnavalesco. Trabalhava como engraxate numa sapataria situada na Rua Vitória, quase esquina com a Avenida São João e a Praça Julio Mesquita, e se dizia sentir honrado quando, nas sextas-feiras, eu o procurava para dar brilho nos meus sapatos de baile.
Estas memórias não poderiam deixar de ser registradas, e espero que venham a ser cultuadas nas hostes da maior e campeoníssima Vai-Vai.
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