Há! Quantas saudades desses tempos… Desses velhos tempos que jamais voltarão… Na segunda semana do mês de Abril de todos os anos, chegavam os “Paus de Festa” era assim que eu e a garotada da rua nos referíamos a esses adornos. Isso era prenúncio de muita festa, muita alegria, pois era assim que começavam para nós a festa de Nossa Senhora de Casaluce. <br><br>Esses enfeites que me refiro eram arcos de madeira brancos, repleto de lâmpadas e que eram instalados mais ou menos a 50 metros de distância um do outro,em toda a extensão da Rua Caetano Pinto até a igreja que fica quase em frente à Rua Paraná. Em frente a minha casa todos os anos tinha um instalado. Como o pavimento da rua era de paralelepípedos era fácil a sua instalação, isso durante os anos 40. Depois que a rua foi asfaltada ficou proibido e acabaram com esses enfeites. Mas a maravilhosa festa continuou sempre até hoje.<br><br>Mas as de hoje não se comparam com aquelas em que vivi na minha infância. Ainda no ano passado na minha visita á São Paulo, coincidentemente no fim de Abril e começo de Maio voltei para ver se encontrava alguém da velha guarda, mas sem sucesso. Lembro que a festa de Casaluce era a primeira das festas napolitanas, depois era a de S. Vito essas duas no Brás, depois vinha a N. S. Achiropitta no Bixiga, e a última do ano a de S. Gennaro em Setembro na Mooca, na R. D. Bosco. Mas a que mais gostava era a de Casaluce.<br><br>No ultimo sábado do mês de Abril a festança começava com a Banda que chegava em um ônibus fretado e os músicos, todos fardados com quepe na cabeça, começavam a tocar em frente à farmácia do Rega na esquina da Rangel Pestana e perfilados marchavam em sua retreta, lembro que junto com a garotada os seguíamos fazendo firulas, até chegarmos em frente à igreja. E depois da procissão inaugural e a missa, eles se acomodavam na barraca montada exclusivamente para eles, fazendo o papel do Coreto, tocavam até às 12 da noite.<br> <br>No domingo a festa continuava e por todos os fins de semana até o último fim de semana do mês de Maio. Tudo era alegria por um mês e com muitas atrações como a corrida de sacos, o pau de sebo, a barraca do coelhinho em que se escolhia o número da casinha que o coelhinho escolheria para entrar quando o homem levantasse a casinha do centro onde ele estava confinado.<br><br>Lembro também da barraca do tiro ao alvo, onde se usavam rolhas nas carabinas para tentar derrubar o maço de cigarros que era o prêmio. Havia também as pirâmides de latas que tinham que ser derrubadas por bolas de meia que eram muito leves e assim ficava mais difícil de acertar o alvo, e quem conseguia levava o respectivo prêmio. E a outra em que se pescava com uma vara que tinha um ganchinho na ponta os peixinhos que estavam semi-enterrados em uma caixa com areia e quem conseguia tirar o peixinho levava também o prêmio correspondente.<br><br>O pau de sebo ficava na frente da propriedade dos "Campana" a maior cocheira da rua que continha três. Era um terreno enorme que ia até a Rua Carneiro Leão, e quanta luta, no bom sentido, saia entre os oriundos e os ibéricos para conseguir chegar ao topo e arrecadar o prêmio que às vezes era uma mortadela, um salame ou queijo provolone. Lembro do Moche, o Teleco, o Fanfa, o Bráulio o Servilho o Eufrásio, o Veneno, o Cigano do lado dos Ybericos. E o Genaro, o Bovio, o Catalã, o Tito entre outros do lado dos Oriundos. Essa luta era imensa e só já quase no final da festa é que conseguiam às vezes os oriundos, às vezes os espanhóis, ganhar, pois não era fácil limpar aquele sebo todo, usavam muita areia e normalmente usavam o sujeito mais forte no chão e faziam pirâmides humanas até conseguir alcançar.<br><br>Lembro também das sovas que levava da minha mãe por chegar em casa com a cabeça cheia de farinha, pois não conseguia resistir à tentação de ir no terreno da cocheira dos Campana onde se realizavam inúmeros eventos , eles enchiam uma bacia de farinha de trigo e jogavam umas moedas de $200 réis e com as mãos presas para trás íamos em busca das moedas com a boca, lembro que em todas as minhas tentativas durante anos só uma vez consegui. Mas por mais que tentasse me desvencilhar da farinha que ficava na minha cabeça não conseguia e o castigo que minha mãe me impunha era inevitável. <br><br>Mas a coisa mais bonita da festa era a Procissão de encerramento. O Padre Jesuíno que era o Pároco da Igreja do Brás era também o responsável pela Casaluce nesses tempos, e com a Banda tocando música Sacra, a procissão acompanhava a imagem da N. Senhora por algumas ruas do bairro. E já de volta a nossa rua, vindo do sentido da Avenida para a igreja, todas as casas e sobrados exibiam em suas janelas e balcões suas melhores colchas e mantas para homenagear a Santa. E a procissão ia, em passo bem lento, parando para que as famílias fizessem suas doações. E os que tinham mais poder aquisitivo doavam notas de contos de réis que eram fixadas em uma manta sagrada por alfinetes e como todos queriam doar uns mais que os outros, quem ganhava era a Paróquia.<br> <br>Lembro da parada que faziam no quintal de Santo Antoninho, assim chamado pela imagem iluminada que tinham no corredor da frente, com a banda sempre tocando, também da parada em frente à casa do Comendador Vicente de Nocce que fornecia o pão e macarrão para as prisões de São Paulo,e também da Família Luiz Páscoa, dos Pisacanis, dos Pedro Dias dos Nicola Scopetta, dos Canteiras, dos Contursis, dos Regas. Esse foi um tempo que nunca irei esquecer a Churraria da D. Dolores e seu Raimundo faziam os “rosquinhos de churro” em vez das tradicionais rodas que a gente comprava aos domingos ,dos pizzaiolos que vinham ao som de suas matracas e anunciavam as pizzas que traziam naquele tambor de metal nas costas. Das “maruchelas” ou “Canolis” de creme e de chocolate. Dos “Barquilhos” que eram feitos de massa folhada e assados em rolinhos. E das deliciosas “Sfogliatelle”. E como não poderia deixar de ser, o saudoso Realejo se misturava ao povo tirando a sorte de quem se dispunha com o periquitinho verde.<br><br>Ai tudo continuava no mês de Junho com a Festa de São Vito também com os Paus de Festa, Pau de Sebo e aquela maravilhosa queima de fogos de artifícios no encerramento.<br>E quando chegava Setembro nos despedíamos das festas Napolitanas com a de S.Genaro na Rua D. Bosco, a Avenida Radial Leste naquela época não existia ainda, e caminhávamos até o fim da Caetano Pinto e pela Rua Visconde Parnaíba, em direção da Barão de Jaguará e lá acompanhávamos a festa. Nunca cheguei a ir na de N. S. Achiropitta na Rua 13 de Maio no Bixiga, pois era muito longe ,e essa era a única que perdia. <br><br>Hoje a festa de Casaluce já ultrapassou os cem anos, os cento e doze para ser mais preciso, e ocorreram muitas mudanças na festa. Estive o ano passado por algumas semanas participando dela e pude notar o quanto. Se vendem cupons na porta da igreja ou em diferentes barracas e pode-se usar os mesmos na barraca das massas, nos sanduíches, na de bebidas na de pizzas na de churrasquinhos na de sobremesas etc. O espaço dessas barracas é limitado entre a Rua Paraná e a Campos Salles Antigamente o espaço era desde a Avenida Rangel Pestana até a Rua Visconde Parnaíba exatamente o espaço em que estavam os "Paus de Festas". <br>Que tempos inesquecíveis aqueles de outrora, que tantas felicidades e alegria nos trouxeram.<br><br><br>[email protected]