Os doces da Rua São Bento

Em 1960, com 12 anos, comecei a trabalhar registrado. Minha mãe conseguiu uma autorização especial, Cartão de Trabalho de Menor, com o juiz de menores Aldo de Assis Dias, na Rua Francisca Miquelina, travessa da Rua Maria Paula. Meu primeiro trabalho foi na Av. Brigadeiro Luiz Antonio, 917, 7º andar, na Geigy do Brasil, fabricante de Neocid. O prédio era da Federação Paulista de Futebol. Na entrada havia uma escultura em metal de um jogador de futebol. Na parede do corredor de entrada havia, em relevo, os distintivos dos 11 clubes fundadores, em 1941, entre os quais os saudosos Hespanha (Jabaquara), Comercial da Capital, Ypiranga e SPRailway (atual Nacional da Capital). Não sei se foram levados para a nova sede da FPF, na Barra Funda. No andar térreo, funcionava o Restaurante Zillertal.

Eu era "office-boy". Entregava correspondências na região central. Levava talões de NF para carimbar na Recebedoria, no final da Rua Florêncio de Abreu. E aqui vai a minha história…

Quase todos os dias eu percorria a Rua São Bento. Na esquina da Praça Patriarca havia uma loja da Exposição (depois Exposição Garbo, hoje apenas Garbo). Eu parava em frente às vitrines. Naquela época era novidade as calças Lee, justas nas pernas (antes usava-se calça Rancheira, Farwest, com a barra dobrada), sapatos Mocassim e blusas de banlon e buclê. Naquela época quase não havia inflação e as roupas eram vendidas a longo prazo de 20, 30 prestações.

Daí eu fazia as contas: se eu caminhar tantos quilômetros por dia, economizando o dinheiro do ônibus, ganharia no dinheiro de hoje cerca de R$ 10 por dia. Daria para eu comprar, a prazo, um enxoval de duas calças, três camisas, um par de Mocassim. E ficava me imaginando vestindo aquelas roupas lindas.

Saído do sonho, eu retomava o meu caminho. Ali, na Patriarca, havia umas banquinhas oferecendo deliciosas geleias coloridas de vermelho e amarelo.

Comia duas. Mais um pouco, no Largo do Comércio, uma cocada queimada. Na Praça Antonio Prado, um pé de moleque. No Largo São Bento, uma paçoca.

E os R$ 15 já era. "Amanhã", desculpava-me eu, "começo a guardar o dinheiro do ônibus para gastar na Exposição”. No outro dia, a história se repetia. E nunca comprei a calça Lee, o Mocassim, a blusa de banlon…