Apesar de nascido em São Paulo, morei no Paraná até os cinco anos de idade e, quando voltamos, fomos morar na Rua João Ramalho, como já falei em outras histórias. Nessa época, estava começando a descobrir a vida e os sentidos, principalmente o olfato e a visão que eram os responsáveis por lembranças que trago na memória até hoje. <br><br>Ainda no Paraná, na cidade de Apucarana, meu pai tinha um sítio com vacas leiteiras, porcos, galinhas e todos esses animais domesticados. Não me lembro do sítio nem das pessoas que lá trabalhavam, mas o cheiro dos bichos é inesquecível, como também é inesquecível o aroma de uma plantação de café ou de um pomar de laranjeiras em plena florada, só mesmo estando em um lugar assim para poder entender.<br><br>Mas, voltando a São Paulo, meus pais trouxeram do Paraná uma saca de café cru que minha mãe torrava em um panelão de ferro e que, para desespero da vizinhança, esse aroma ia longe, perfumando o ar da rua. Tinha também o entregador de pão, que vinha de uma padaria que ficava lá na Rua Dr. Homem de Melo. Ele vinha em um triciclo, com uma caixa enorme na frente, aliás, fico pensando que não devia ser nada fácil vencer as ladeiras das Perdizes pedalando e empurrando todo aquele peso. Mas, quando ele chegava e abria a tampa do carrinho, o aroma de pão doce que exalava no ar era algo que também não há como definir, parecia o paraíso que estava descendo à terra.<br><br>Eu morava quase na esquina da Rua Dr. Franco da Rocha e, mais para frente, perto da Rua Apiacás, tinha a Pizzaria Paulino, que também impregnava o ar da cidade com a lenha queimando nos fornos que assavam pizzas com produtos fresquinhos e com seus perfumes peculiares. Bem, nem tudo era o paraíso, havia onde hoje passa a Avenida Sumaré, o riozinho, como chamávamos o Córrego Sumaré, e o cheiro dele era algo que não se podia dizer ser dos melhores.<br><br>Passados alguns anos, já no ginásio, estudava no Colégio Professora Zuleika de Barros, na esquina da Rua Padre Chico com a Avenida Pompéia. Lá perto havia uma fábrica de biscoitos, acho que era a Petybon, mas não tenho certeza, que também nos brindava com o aroma das suas fornadas. Lá na Água Branca, onde hoje está o Shopping West Plaza, tinha a Loja Sears, que exalava um perfume através das bocas do ar-condicionado que, tenho certeza, muita gente não consegue esquecer. A Mesbla, que ficava na esquina das Ruas 24 de Maio e Dom José no centro, também tinha o seu perfume próprio. O Parque da Água Branca, com suas exposições de animais, principalmente cavalos e bois, nessas ocasiões, também tinha o seu aroma indisfarçável.<br><br>E nas festas juninas, os cheiros do quentão, do vinho quente, da pipoca e do algodão-doce, ainda existem hoje, mas, como diriam meus avôs, não são a mesma coisa. Lembro que, quando comecei a trabalhar, na esquina da Rua Marconi com a 7 de Abril, tinha um bar que fazia um cachorro-quente com molho de tomate e pimentão que nunca mais senti um perfume e nem sabor parecido em lugar nenhum.<br><br>Muitos anos depois, já morando na Mooca, quando voltava da escola à noite, no ônibus que ia para a Vila Bertioga e passava pela Rua Siqueira Bueno, ali perto tinha a fábrica do Café Seleto e, nas noites em que estavam torrando o produto, aquele cheiro lembrava muito o do café da minha mãe, o que fazia com que eu voltasse à lembrança da infância.<br><br>Há alguns anos, já casado, tínhamos um pau d'água, que depois de muito tempo mergulhado em um vaso só com água começou a definhar. Não queríamos nos desfazer daquela plantinha e resolvemos plantá-la no quintal para ver se ela não morria. Bem, aquela plantinha virou uma árvore com mais de seis metros de altura e que, para nossa surpresa, depois de alguns anos, começou a dar uma flor que exalava um perfume noturno, muito parecido com Jasmim e que era sentido a mais de 40 metros de distância.<br><br>Muitas vezes, íamos visitar os meus cunhados, que moravam no bairro do Pari e nos fundos do prédio onde eles moravam havia a fábrica da Tostines. Nem preciso dizer que aquele aroma era tão irresistível quanto tantos outros que estou comentando nesta pequena narrativa. Hoje, a cidade mudou muito, mas continua a nos surpreender com os seus aromas mais diversos, como quando vamos aos shopping centers e aquela torrente de cheiros nos anima o nariz a ficar farejando o ar como um cãozinho perdido no meio da multidão.<br><br>Hoje, trabalho perto da Avenida Eusébio Matoso e, às vezes, vamos almoçar no Shopping Eldorado, que fica do outro lado do Rio Pinheiros, e temos que atravessar a ponte sobre o rio, não dá para dizer que essa será uma das minhas melhores lembranças, principalmente quando o dia está quente, dá a impressão que o cheiro do rio nos impregna até a alma, mas nada que ao chegar em casa um banho com um sabonetinho cheiroso não dê um jeito até o dia seguinte.<br><br><br>E-mail: [email protected]