Miltinho bom de mira

Miltinho foi meu grande amigo de infância, ele era um verdadeiro gênio jogando bolinha de gude, era capaz de “chinar” (era como chamávamos pelo menos na Freguesia do Ó, quando alguém acertava a bolinha de vidro do adversário no jogo), a mais de um metro e meio de distância, a todo o momento dificilmente errava. Também era bom de bola e um verdadeiro mestre no estilingue.

Quando entrava pelas matas ou então invadia os pastos ao lado do ainda claro e cheiroso Rio Tietê voltava sempre com quatro ou cinco passarinhos em um saquinho de sal vazio (nos anos 50 o sal de cozinha era vendido embalado em sacos de algodão).

Eu às vezes ia junto com meu estilingue, mas nunca tive muita coragem em atirar nos pobres pássaros, mas Miltinho não perdoava nada que se mexesse nos galhos das árvores. Eram sabiás, tico-ticos, pardais, pássaros pretos, azulão, papa-capins, joão de barro, pixoxós, bem-te-vis, bigodinho, ele só não matava mesmo canarinho da terra, pintassilgo, e avinhado, hoje mais conhecido como curió. Ele não perdoava nem beija-flor ou biquinho de lacre, passarinho de origem africana que naquela época voavam em bandos pelas matas paulistanas.

Não sei se ainda existem nas periferias de nossa grande metrópole. Aqui onde vivo atualmente em Lorena tem muitos ainda e pela manhã eu os vejo em bando nos fundos do meu quintal que ainda é espaçoso com bananeiras e árvores frutíferas com a presença de muitos pássaros que a muito não se vê mais em nossa capital. Os Miltinhos de plantão e o "progresso" os extinguiram.

Havia um comentário à boca pequena assunto esse bem reservado, de que o amigo Miltinho não era filho do seu pai e sim de seu tio, irmão mais velho de seu pai, que morava em uma casa ao lado da sua.

Não sei de onde partiu essa historia, mas o fato era comentado em todas as casas e por quase a maioria do pessoal da Freguesia e como sempre, é claro, era sempre por baixo dos panos.

O tempo foi passando um dia acho que estávamos perto dos 13 ou 14 anos de idade e assistíamos um jogão de sinuca em um bar com vários outros amigos, já que o jogo era disputado por dois grandes rivais do bilhar; um era o Célio natural do bairro contra um policial da Guarda Civil morador em outro bairro, a disputa era séria e envolvia dinheiro.

O jogo estava empolgante com verdadeiros shows de efeitos, muitas finas e casquinhas quando no auge da disputa dois homens iniciaram uma discussão que terminou em briga entre os dois. O jogo parou e então meu amigo Miltinho entrou correndo puxando pelo Guarda Civil que havia parado o jogo pediu chorando:
– “Seu guarda salve meu pai que esta brigando com o meu tio”.
O Guarda acudiu meio surpreso e falou.
– “Tudo bem calma! Menino tenha calma e me diga qual deles é o seu pai”.
E o Miltinho respondeu rapidamente:
– “Não sei seu guarda, é justamente por causa disso que eles estão brigando”.

Miltinho meu querido amigo para sossego dos pássaros, morreu afogado dois anos depois, provavelmente sem resposta para esse assunto.

E-mail: [email protected]